19 outubro, 2010

A DECISÃO

Ela não aceitou, apenas suportou. Decidiu que enquanto pudesse, guardaria segredo. Deus é testemunha de seu empenho em cumprir o que havia prometido. Mas a situação assumira contornos insustentáveis. Então, naquela noite, ela tomou a decisão mais difícil de sua vida. Empreendeu o que sabia ser o último, o derradeiro esforço para adiar a revelação, mesmo que fosse um pouquinho mais. Era muito grande o amor que os unia e ela não queria magoá-lo.

Aonde vais, vou dar uma saída, volto logo. Não, por favor, preciso saber, quero saber o motivo dessa angústia, desse tormento que te rouba o brilho do olhar, serei eu a causa, sei, já não me amas. Ela respondeu que seu amor era o mesmo, intacto, profundo, intenso, sem medida. Contendo as lágrimas, virou as costas e saiu.

Foi então que ele leu o bilhete. Jamais poderia imaginar que aquela letrinha miúda, que tantas vezes alegrara seu coração, estivesse agora falando palavras tão pungentes. Lendo, deu-se conta de que não havia mais nada a fazer: tudo aconteceria como estava traçado no Grande Livro da vida.

E assim aconteceu.

O tempo ajudou-o a superar a tristeza, mas ele nunca mais foi o mesmo, jamais se conformou. Tornou-se introspecto e sorumbático. Perdeu a fé, e passou a habitar as sombras da angústia. É refém de sua própria humanidade. Consome seus dias a procura de uma explicação racional que o faça entender os mistérios da morte e do renascer.

*

Não creio que ele possa ter acesso a esse entendimento. Para mim, a morte e o renascer são as duas grandes incógnitas da vida e, racionalmente, não há explicação. Só especulação. A luz está na transcendência.

Marli Soares Borges
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