08 abril, 2014

SERÁ QUE FUNCIONA?

body of prof

Encontrei essa foto perdida no baú. É da série "Body of Proof" lembra? Eu gostava demais, não perdia nenhum episódio, pena que acabou. Reconheço que a foto é tosca, mas a frase... bom, a frase é perfeita. Vem lá do século 18, e é muito usada nas salas de autópsias do mundo inteiro. Eis o texto original: 

"Taceant colloquia. Effugiat risus. 
Hic locus est ubi mors gaudet succurrere vitae." 
(Que cessem as conversas. Que fuja o riso. 
Este é o lugar em que a morte se deleita em servir a vida). 

Fico pensando na razão de uma frase assim, tão cheia de vida, continuar sendo usada somente nos portais das salas de autópsias. Sei lá, tem coisas que não entendo, parecem cristalizadas, permanecem ad aeternum, do jeito que estão. Quer saber, vou sugerir ao CFM, uma mudança. Que tal, além das salas de autópsias, emoldurar também o centro cirúrgico de transplantes com o texto completo como consta no original? Afinal, a vida está mesmo imbricada na morte. Ou é a morte que está imbricada na vida? Não importa. Sabemos que os transplantes podem ocorrer a partir de doadores vivos, mas é bem mais comum que ocorram a partir da tragédia da morte prematura, que, com a doação de órgãos ou tecidos, possibilita que outra pessoa tenha uma nova vida. Ora, essa frase se encaixa perfeitamente no propósito de fazer viver. E tem um conteúdo tão profundo e tão rico em interpretações, que pode funcionar como alento para as famílias dos doadores, no sentido de que a morte daquele ente querido não foi em vão, que houve um propósito maior. Aquela morte prematura e inesperada veio socorrer a vida, e, de certa forma, se sobrepôs à própria morte. Penso que essa mudança viria ao encontro das motivações que impulsionam o assunto das doações de órgãos na atualidade.

Mas o que tenho com isso, eu que não sei nada sobre transplantes nem sobre patologia?

Nada e tudo. Faço minha leitura voltada para a estreita relação de transcendência que une a vida e a morte. Penso no morrer e no viver. No viver e no morrer. Na morte, esse desespero que nos acompanha desde sempre.

- Marli Soares Borges -
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