24 julho, 2014

REPARA BEM NO QUE NÃO DIGO


repara


Sempre achei que era boa ouvinte. Mas não! Na adolescência eu falava demais e ouvia de menos. Não aguentava ouvir, eu ia logo dando um palpite e acabava fazendo uma confusão do que a pessoa dizia com o que eu queria dizer. Um dia dei de cara com a poesia de Alberto Caeiro: "Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma". Pensei, pensei. Silêncio dentro da alma? Demorei a perceber o desafio que envolve a arte de ouvir. Entendi que para OUVIR é preciso paciência, contemplação e silêncio. Silêncio dentro da gente, nada de pensamentos, nada de julgamentos. Quando me dei conta disso, comecei a esforçar-me para ouvir o que as pessoas estavam querendo me dizer. E nesse exercício silencioso e atento, já consigo, algumas vezes, captar os sons que existem nos intervalos das palavras. Tem um poema da H. Kolody que diz: "ouvir com os olhos e afirmar: eu compreendo; nem é preciso dizer nada". 

Marli Soares Borges, 2013
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