sábado, outubro 02, 2021

O AMOR QUE NINGUÉM VÊ


O amor que ninguém vê
A solidariedade orgânica 
é um 
remédio do qual ninguém pode prescindir.


Não direi do amor romântico, do enlevo, do elã. Isso é com os poetas. Minha palavra tem outro enfoque: o amor-nosso-de-cada-dia, esse amor acanhado que temos uns pelos outros, o amor que ninguém vê. É impressionante os malabarismos que a gente tem que fazer pra viver essa aventura circunstancial de amar. E esse confinamento, essa pandemia piora tudo.

Nossa vida continua de pernas para o ar. As doidices também: manias de todas as cores, exageros alimentares, tvs ligadas dia e noite, celulares alucinados, gente que toma duzentos banhos por dia, mães de filhos pequenos imaginando quantos dias faltam pra ficarem loucas, toques de todos os quilates, faxinas intermináveis, gente resmungando aqui e ali. Filhos adolescentes tendo que aturar as manias dos pais. Pais tendo que suportar filhos mal humorados, metendo o bedelho em tudo, e deixando pratinhos pela casa inteira. E a mídia de goela aberta, vomitando desgraceiras. E tec-tec-tec, dá-lhe celular! E croc-croc-croc, dá-lhe comilança! até quando? Não sei. 

Calma. Tudo na vida tem os dois lados: se num dia a gente está querendo se afogar numa bacia de álcool gel, no outro podemos estar de boas, achando o confinamento uma solução razoável. O lado bom é que, com a pandemia, melhoramos as lentes e apuramos nosso olhar. E passamos a valorizar a essência das coisas: o cafezinho que o marido fez, os brinquedos que as crianças guardaram no lugar, as roupas que o marido lembrou de dobrar e guardar enquanto você se esmerava nas panelas; o filho adolescente que tirou o lixo e arrumou o quarto, a filha que deu uma geralzona na casa. E por aí vai. O cotidiano da vida tem muitas demandas, mas é fundamentalmente um dar e receber, forever and ever.  

Não é difícil ver nas ações diárias o gesto expressivo do amor. O que dificulta é a superficialidade que durante muitos anos fez a nossa cabeça. E a mania de grandeza: só valem as grandes coisas (geralmente eventuais). As pequenas coisas (diárias) a gente reclama, mas não liga quando alguém faz. Errado! Os detalhes diários é que fazem a festa, e, mesmo que as tarefas estejam sendo executadas à contragosto, na marra, não importa, esse trabalho tem que ser valorizado, senão as pessoas começam a murchar. Não existe um “comportamento padrão” para confinamentos. Para quê uns ficarem patrulhando os outros?

Sozinha diante do teclado e pensando nisso tudo, vejo como é importante praticar, aceitar e entender esse amor vital e palpável. Sem preconceitos, sem críticas, sem ranços familiares, sem julgamentos. Esse tempo adverso requer compreensão. Não está fácil para ninguém. 

Aceite de bom grado esse eu-te-amo soletrado em cada tarefa executada. Porque o amor, além de ser um sentimento interior é uma atitude exterior e a solidariedade orgânica é um remédio do qual ninguém pode prescindir. A parcela de colaboração diária de cada um, em casa, é vital para todos e ninguém deve se omitir.

Engraçado como essas coisas passavam batido antes da pandemia. 

-Marli Soares Borges-

50 comentários:

  1. Bom dia decsabado querida Marli!
    Belo e elaborado texto que diz do amor, esse que nem todos percebem, pois estamos mesmo em grandes mudanças e esperemos que para melhor, amar ainda é a essência da vida!
    Amei ler aqui e fico feliz sempre com suas amáveis visitas e comentários!
    Abraços bem apertados sempre!

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    1. Muito obrigada, Ivone!
      Muito bom ver você por aqui lendo e comentando meus textos. Precisamos "ver" esse amor que está nos nossos olhos e não damos bola, ou iremos todos perder o entusiasmo e murchar feito um maracujá, rs.
      Bjs

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  2. Beleza,Marli.Concordo totalmente contiugo! Saber valorizar pequenas coisinhas, simplicidade! Aqui em Poa, einfelizmente, se abre uma padaria, achamos ótimos, frequentamos e logo se espalha, pronto! Vira pont e enche de luxo, nem mais conseguimos comprar o pãozinho diferente do fds! Assim é! Essa mania de tornar tudo grandioso, sem se ater às pequenas coisas... E por aí vamos. Que o amor seja mostrado e transferido!Adorei te ler! bjs, chica

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    1. Muito obrigada, Chica!
      É isso mesmo, as pequenas coisas... são os detalhes que fazem a festa! Precisamos ver essas pequenas coisas, essas várias maneiras de dizer eu-te-amo.
      Bjs

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  3. Pode ser que o povo tenha aprendido alguma coisa depois da pandemia! Amei ler! Obrigada pela partilha! :))

    Felizes somos ao contemplar o amanhecer
    .
    Beijos, e um excelente fim de semana!

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    1. Muito obrigada, Cidália!
      Também desejo que as pessoas aprendam e sejam mais felizes.
      Bjs

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  4. Boa tarde Marli,
    Excelente texto e não posso deixar de estar mais de acordo.
    Muito importante valorizar a entreajuda que se tem verificado e a qual também testemunho.
    O confinamento tem tido coisas muito más, mas talvez as boas superem essas.
    Amenos e tenhamos esperança!
    Beijinhos e ótimo fim de semana.
    Ailime

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    1. Obrigada, Ailime!
      Temos que dar atenção as coisas boas, a gente só liga para as ruins, infelizmente.
      Bjs

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  5. O amor é lindo, fascinante... saber vivê-lo é sublime.
    .
    Feliz fim-de-semana … cumprimentos
    .
    Pensamentos e Devaneios Poéticos
    .

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    1. Obrigada pelo comentário, Ricardo!
      E viva o amor!
      Bjs

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  6. Um texto para reflectir. Concordo que o amor não so se expressa com palavras, mas também são os gestos que falam. Ise amir invisible que se vota un acto de reciprocidade no dar e recever.
    Gostei de ler o que aquí nos deija.
    Beijinho e bom domingo e outono.

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    1. Obrigada, Beatriz!
      Que bom que gostou, fico muito feliz. Há vários modos de amar e precisamos reconhecer cada um deles.
      Bjs.

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  7. Oi Marli
    Depois de um ano de pandemia que causou um grande 'pandemônio' rs temos agora as sequelas _aquelas citadas no seu texto e outras que de certa forma faz todo sentido e não usávamos_ limpar trezentas vezes o que compramos no supermercado, limpar os calçados na chegada em casa, lavar as mãos mil vezes e por ai vai_ Só que essas manias são quase saudáveis e devia ser necessárias, independente de pandemia rs
    Tomara que nessa convivência mais forçada tenhamos aprendido que amor se faz em pequenas gotas e das pequenas coisas.
    Gostei de ler sua crônica Marli
    Um bom domingo ,com abraços

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    1. Obrigada, Lis!
      Ainda pretendo escrever sobre as manias saudáveis que adquirimos com a pandemia. Por enquanto, preferi fixar-me no amor-nosso-de-cada-dia. Esse amor que ninguém nota, mas que está presente em nossas ações diárias.
      Bjs

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  8. Olá Marli
    Te parabenizo pelo seu verdadeiro e reflexico texto.
    Aprendi muito com a pandemia. Agradeço a Deus pela vida e pelo carinho que recebi, da familia, embora de longe...
    Pequenos gestos fizeram grande diferença.
    Tenha um excelente fim de semana.
    Beijinhos
    Verena.

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    1. Obrigada, Verena!
      Tão bom quando a gente consegue aprender com as adversidades. Sinal de evolução espiritual. Somos privilegiados, estamos aqui blogando enquanto outros estão morrendo por aí. Temos mesmo é que agradecer de joelhos. Obrigada, Deus!
      Bjs

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  9. Boa noite querida amiga, Marli!
    Que belo texto, para ler em silêncio e refletir.
    Obrigada pela partilha.
    Passando para desejar uma boa noite e feliz domingo.
    Beijinho e feliz Outubro.

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  10. Depois me diz se meu comentário
    anterior a esse entrou, por favor? Bjibs

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  11. Marli,
    Vou refazer o comentário pq já vi que perdi.
    Eu penso que esses quase dois anos
    serviu como um reset geral no mundo
    e pra todo mundo.
    Todos ficamos isolados e com
    tempo para nós reencontrarmos conosco. A vida é tão rápida
    que nem percebiamos...
    Todos tivemos tempo sim.
    Valorizar o " eu te amo de cada dia " é fundamental.
    Adorei ler aqui.
    Bjins de bom domingo
    CatiahoAlc.

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  12. Excelente texto, Marli, há várias formas de dizer que se ama e devem ser valorizadas. Mas com certeza, há que ser reciproco, ou nos sentimos usados e aí é uma confusão só e não há comunicação que resolva.
    Abraço!

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    1. Isso mesmo, Dalva. Bem como falei no texto: "O cotidiano da vida tem muitas demandas, mas é fundamentalmente um dar e receber, forever and ever."
      Obrigada por comentar. Bjs

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  13. Boa tarde querida Marli,
    Li atentamente o seu reflexivo, positivo e bem elaborado texto.
    Todo ele demostra um grande sentido de observação e evolução pessoal.
    Esta pandemia, dividiu, quanto a mim, dois grandes grupos de pensamento, os que reclamam do que perderam, e os que abençoam o que ganharam.
    Estes pequenos grandes gestos de amor vital e entreajuda familiar e não só, estavam esquecidos, no corre corre diário, e espero sinceramente, que quando tudo volta ao "normal", não esqueçamos estes ensinamentos.

    Beijinho grato, continuação de feliz domingo!

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    1. Também espero, querida Fê. Os aprendizados, com certeza, devem continuar.
      Obrigada pelo comentário.
      Bjs

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  14. Boa tarde, minha querida Marli!
    A pandemia fez muitos desajustes em diversas famílias!
    Agora, é ter esperança de que tudo melhore.
    Um beijinho no seu coração!
    Megy Maia🌰🌺🍀

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    1. Exato, Megy.
      Esperança e atitude!
      Obrigada por comentar.
      Bjs

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  15. A pandemia trouxe as invisibilidades de muitas ações e comportamentos. Quantos conflitos foram gerados poe estes detalhes que você citou. Esta sua frase está perfeita:" aceite de bom grado esse eu-te-amo soletrado em cada tarefa executada." E vou levar para algumas ideias que temas lançadas nas redes da minha associaçao de Terapia de familia.Gostei muito da sua reflexão concluída na valorizão do eu-te-amo em pequenas tarefas. Bom domingo

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    1. Que bom que gostou, Norma! Fico feliz quando você leva algumas ideias minhas para sua "Associação de Terapia de família". Interagir, trocar conhecimentos é muito bom, todos evoluímos. Adoro essas trocas.
      Bjs

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  16. Gostei da forma como se refere ao amor-nosso-de-cada-dia. Como é importante dar atenção aos pequenos gestos. Como é necessário termos paciência com os outros e com nós mesmos... Magnífico texto!
    Uma boa semana com muita saúde.
    Um beijo.

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    1. Que bom que você gostou, Graça!
      Com certeza, a paciência com os outros e com nós mesmos faz a diferença no modus vivendi de cada um.
      Bjs

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  17. Muito bom post, Marli! Na verdade, são as pequenas coisas que fazem a diferença; é através delas, que o amor se manifesta. Concordo, inteiramente! E não há como negar, também, que essa pandemia mudou a nossa forma de viver... e de ver! Meu abraço, boa semana.

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    1. Com certeza, Árabe, essa pandemia abriu algumas janelas pra gente olhar. Quem viver, verá.
      Obrigada por comentar.
      bjs

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  18. Ótimo, seu texto Marli!
    Sou do tipo de pessoa que vê o lado bom de absolutamente tudo e na pandemia, apesar de todos os pesares, consigo enxergar os seus lados "bons". Mas ter olhos para realmente ver, não é para todos, infelizmente, mas tem como se aprender a viver assim, percebendo os pequenos gestos, os tais "eu te amo" não ditos em palavras, mas nas atitudes... é preciso incentivar mais e valorizar tudo, cada detalhe, não só nos momentos mais drásticos, mas em todos os momentos. É preciso perceber, sentir e se fazer sentido o amor nosso de cada dia, faz bem pra todos. Tudo passa, mas que se permaneça o amor e os melhores sentimentos, em nós, porque na realidade, é o de fato nos restará, um dia.
    Boa semana, Marli, beijos
    Valéria

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    1. É verdade, Valéria, tudo passa.
      A única coisa que fica é esse amor que ninguém vê, mas que afinal de contas é a força que nos une e nos ajuda a viver.
      Obrigada pelo comentário.
      Bjs

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  19. Boa tarde Marli.
    Exatamente isso, o amor é uma via de mão de dupla, e precisamos ensinar os valores nos por menores, que de menor nada tem!
    Sempre falo aqui do desserviço que a televisão e muitas mídias incentivam a anos, e está enraizado, é difícil mudar, mas com paciência e amor, tudo é possível mudar!
    Só é visto e valorizado o superficial, as máscaras, enquanto isso um cafezinho feito com amor vai passando despercebido...
    Precisamos despertar para o essencial da vida, que obviamente está mais perto do que a gente imagina, ou seja, dentro de casa, ao nosso lado...
    Amei passar por aqui.
    Beijos no coração,
    Ju

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    1. Muito obrigada, Ju!
      Você disse tudo: "Precisamos despertar para o essencial da vida, que obviamente está mais perto do que a gente imagina, ou seja, dentro de casa, ao nosso lado..." Taí, eis a essência. Tomara que as pessoas aprendam isso.
      Bjs

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  20. Oi Marli,
    Eu estou enlouquecendo presa dentro de casa, imagine os adolescentes e crianças que querem ir pra piscina.
    Brincar no parquinho e viu os político, não estão nem aí com a Covid.
    Beijos
    Lua Singular

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  21. Olá, Dorli!
    Não! não enlouqueça ainda, rs, aguente firme! lol
    Brincadeirinha. Sei, não está fácil para ninguém.
    Bjs

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  22. rsssssssss, que belo texto, Marli!!! Mas é isso tudo que acontece, sem dúvida.
    Adorei a tua frase: ... "mães de filhos pequenos imaginando quantos dias faltam pra ficarem loucas".
    Ainda bem que não tenho filhos pequenos!
    Uma crônica gostosa de ler e você conta com muito humor. E acerta em todas as direções.
    Parabéns, aplausos!! Quando a gente lê um texto e sai alegre é porque deu certo!
    Um beijinho e uma feliz semana!

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    1. Que bom que você gostou, Tais!
      De vez em quando a gente tem que desencanar, aliviar a cabeça um pouco, rs. Eu às vezes me dá na telha e "viajo" rssssss.
      Obrigada pelo comentário.
      Bjs

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  23. Incrível esse texto! Parabéns!

    Boa semana!


    Jovem Jornalista
    Instagram

    Até mais, Emerson Garcia

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  24. Muito bem visto interessante e bem apresentado.
    Fiquei ''presa'' à leitura do texto e deliciei-me. De facto ainda é o amor maior e a rotina que nos salva.
    Dias bons e felizes, Marli. Beijos
    ~~~~~~


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    1. Obrigada, Majo.
      Que bom "prender" uma pessoa inteligente e bacana. O amor é mesmo a mágica da vida e não há nada que se compare.
      Obrigada por comentar.
      Bjs

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  25. Boa noite de paz, querida amiga Marli!
    O Amor deve-se pôr mais em obras do que em palavras.
    (Inácio de Loyola)

    Seus origamis são a expressão da sua alma, uma delicadeza só.
    Parabéns!
    Gostei muito de algo do seu muito bem escrito texto:
    A superficialidade antiga que tenta ninar nossa profundidade e a Pandemia não deixa mais, que benção!
    Tenha um final de semana abençoado!
    Beijinhos com carinho de gratidão e estima

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  26. Muito obrigada, Rosélia!
    Fico feliz que você goste dos meus origamis. E é verdade, a pandemia aprimorou nosso olhar para muitas coisas que a gente nem ligava.
    Bjs

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  27. A pandemia acordou muitos sentimentos adormecidos Marli como sua linda crônica traduz. De tudo fica um pouco e quando o pouco vem com amor, torna-se bem interessante a assim rega-lo é fazer crer, que frutificará em belos momentos e ações, que enraizarão. Lindo todo amor que explode e vem como onda para nos completar.
    Ótimo olhar para dentro de casa e crer numa vida melhor.
    Beijo de paz amiga.

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    1. Muito obrigada, Toninho.
      Temos que olhar e perceber o próximo que está mais próximo, rs, não é? Eu sempre tenho esperança na vida, a poliana ainda está viva em mim.
      Bjs

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Procurarei responder a todos e retribuir as visitas com a maior brevidade possível. Abraços. Marli