quarta-feira, março 11, 2026

Dongo: um gatinho digno e amado que chegou e saiu de minha vida como um mestre

 

Dongo se achava muito esbelto, rs


- Marli Soares Borges -

Dongo foi a personificação da dignidade felina. Este frajola de olhos dourados, resgatado do lixo (pela minha nora), veio para cá, pouco mais que um recém nascido. Mas o bebezinho frágil cresceu, e logo assumiu o comando da minha casa com a perfeição dos mestres. Era de poucas palavras, uma autoridade verdadeira e silenciosa. Nos últimos tempos, seu maior prazer era cochilar no sofá ou na minha cama, absorvendo o sol da tarde, um ritual de anos a fio que me parecia imutável. E adorava um ar condicionado. Eu e o Nilton estávamos sempre de olho nele e fazendo tudo o que estivesse ao nosso alcance para que ele vivesse feliz. E acho que ele era feliz. E muito. Pelo menos era o que ele nos transmitia com seu modo de ser.

Mas o tempo, que não perdoa nem mestres nem gatos, começou a cobrar seu preço. Notei primeiro uma mudança sutil no som do ronronar; um leve chiado, quase imperceptível. — Ele estava com onze anos.

A apatia que se seguiu foi alarmante. Dongo, que, embora nunca tivesse sido um gatinho dinâmico e atleta, costumava sempre responder aos carinhos com um ronronar satisfeito, mostrando a barriga e se esfregando na gente. Mas agora apenas piscava lentamente aqueles seus olhinhos dourados e expressivos. A respiração, antes um movimento suave do flanco, transformou-se em um esforço visível, um balanço rítmico e desesperado do abdômen que lembrava o movimento de um peixe fora d'água. Ele deitava-se com o pescoço estendido, como se buscasse mais ar. 

O pânico tomou conta de mim quando ele começou a tossir. Em minha mente, cheguei a ouvir o som do mar preso no peito do meu querido gatinho — um som úmido e estranho.

A viagem de emergência ao veterinário foi um borrão de ansiedade e meu filho, com os olhos marejados de lágrimas, foi incansável nos carregando pra lá e pra cá. O diagnóstico veio rápido e grave: efusão pleural. Havia líquido acumulado no espaço pleural, comprimindo os pulmões do Dongo e impedindo-o de respirar adequadamente. Era uma emergência médica.

O veterinário da Clínica agiu com precisão. “A internação deve ser imediata. Precisamos drenar esse líquido sem demora. Ele não consegue mais trocar oxigênio suficiente."

Dongo foi submetido a uma toracocentese de emergência. A remoção do fluido foi para análise e revelou-se inconclusiva. Poderia ter várias causas, inclusive câncer. E me bateu o desespero, o que poderia ser? — mas o melhor mesmo é que a toracocentese de emergência trouxe alívio imediato e visível —. A cor rosada voltou às gengivas pálidas do Dongo e o esforço respiratório diminuiu drasticamente. Teve alta, e no dia seguinte levamos ele na médica veterinária de nossa confiança, aquela que sempre o acompanhava para saúde, vacinas, unhas e higiene em geral. Ela fez um exame clínico completo e examinou todas as imagens e os laudos de todos os exames. Deu-nos as explicações que julgou adequadas e prescreveu os medicamentos. Foi comprovada a pneumonia. 

A crise passou, mas a vida do Dongo mudou para sempre. Ele agora tinha uma condição crônica que exigia manejo contínuo. O tratamento emergencial envolveu seis injeções que o ajudariam a eliminar o excesso de líquido e impedir que o "mar" voltasse a se acumular em seu peito. E teve início uma rotina contínua e sistemática  de “bombinhas” para a respiração. A bombinha, antes um objeto estranho, passou a ser uma aliada diária para garantir que ele respirasse melhor. Duas vezes ao dia, ele recebia sua "nuvem de ar", um ritual que se tornou vital para sua qualidade de vida. Para sempre, sem parar. 

Minha filha encarregou-se das seis injeções iniciais e eu e o Nilton nos transformamos em enfermeiros dedicados. Dongo, com a sabedoria dos idosos, aceitou seu destino. Ele aprendeu que, embora a bombinha não fosse lá essas coisas, ela trazia de volta o conforto do ar. Quando a gente viajava, meu filho se encarregava dessa tarefa.

Minha cama e meus lugares preferidos da casa continuavam pertencendo ao Dongo. Assim que eu levantasse de onde eu estivesse, ele se materializava imediatamente naquele lugar. Mas ele sempre preferia um colinho. Era eu sentar no sofá ou em qualquer lugar e ele pulava pro meu colo. Felizmente, a tosse e o chiado desapareceram. 

Logo que a gente sai da varanda do meu quarto, há umas folhagens bonitas na terra e nós batizamos de "a selva do Dongo" porque ele gostava dali. Mas depois da crise ele nunca mais andou pela “selva” como antes. Raramente ele dava uma saidinha de minutos e voltava em seguida. Eu ficava junto com ele, observando as mudanças, mas estava feliz porque a paz havia retornado ao seu peito e ele respirava devagar e profundamente, com uma gratidão silenciosa que apenas meu querido Donguinho saberia expressar. O barulho do mar revolto tinha ido embora, substituído pelo som suave e rítmico de uma respiração normal. E esse som, para mim, era a mais bela melodia do mundo.

Dongo comia somente sachê. Ração seca não era com ele. E os sachês tinham que ser variados, nada de aceitar promoções deste ou daquele e comprar um monte de cada vez. Ele não gostava de rotinas alimentares assim. Ele queria vááários tipos e sabores de sachês. E nós obedecíamos fielmente, afinal a última palavra era dele e ele sabia se fazer entender. 

Mas o relógio do tempo não para e, aos treze anos, um tumor o levou para sempre de nós. Gosto de pensar que sua jornada na terra tenha findado e que ele partiu para seguir sua evolução em planos astrais onde o tempo já não o alcança. Sua luz agora pertence à eternidade. 

A cirurgia foi bem sucedia, mas ao voltar da anestesia ele não respirou mais. Ele se foi. Meu amado gatinho se foi. Nosso Donguinho se foi.

. . . . . . . . . .

É imensa a gratidão que sinto por este gatinho querido que só me deu alegrias. Dongo foi meu gatinho, meu companheiro, meu terapeuta incansável 24 horas por dia e meu grande amigo. Uma doçura em pessoa. Ao longo de 13 anos de convívio ele ensinou-me grandes lições de vida. Morreu como viveu, com a dignidade de um mestre.

Estou escrevendo e chorando a morte do meu doce Donguinho. Estamos chorando, eu e o Nilton. E sei que choraremos muito mais. Mas sei que essa dor inicial vai passar e dará lugar a uma saudade profunda. Meu coração quebrou-se em mil pedaços e estou tentando colar com precisão, pois um coração sereno é uma das ferramentas indispensáveis para enfrentar as surpresas da vida.

Aqui encerro um maravilhoso ciclo de minha vida, que iniciou-se em fevereiro de 2013, com a chegada do Dongo e encerrou-se em março de 2026. Foram treze anos de alegrias, carinhos, emoções, reflexões e aprendizados. Muito obrigada, Dongo, por você ter estado conosco e ser quem você foi.

😺🌻🐾💔

Entrego, confio, aceito e agradeço.


quinta-feira, março 05, 2026

A COR DO MEU EU REAL





- Marli Soares Borges - 

A convite de nossa querida amiga Rosélia do Blog Espiritual-idade 
estou participando do projeto "Escrevendo às quintas".  
A proposta é escrever sobre 
"... a cor que mais identifica nosso eu real"


Pensando no significado das cores, percebi que, de uns tempos para cá, uma cor só não consegue mais me identificar. A cada dia, dependendo do meu amanhecer, há uma cor que colore minha existência. Se eu pudesse escolher, certamente escolheria o azul, que é o território da felicidade, do tudobem, do tudoazul. Contudo, a natureza nos presenteou com pouquíssimas coisas azuis: o céu, o mar, o nosso planeta, a arara azul, algumas flores azuis, o Pássaro Azul da Felicidade e a música do Djavan -aquela que azuleja o dia. Tem uma corrente de pensadores que afirma que a cor azul está associada à felicidade, exatamente porque há poucos azuis na natureza e, por isso, a felicidade seria muito difícil de encontrar. Mas não concordo: reconheço que a cor azul é rara, mas por outro lado, tudo de mais substancial que temos na natureza é azul.  

Ops, falei demais e me perdi. Enfim, minha essência não cabe em uma única cor. Sou plural, tenho um arco-íris dentro de mim. A pluralidade de cores que me anima traduz meu estado mais puro de liberdade. Ela me permite mudar, evoluir e colorir os dias comuns. Às vezes me recolho no silêncio de um violeta profundo, noutras transbordo na alegria do amarelo solar e noutras me permito voar com os pássaros azuis, entre o azul do céu e do mar! 

💙 💚 💛 💜

domingo, março 01, 2026

SOMOS SERES CONTAGIANTES





- Marli Soares Borges -

Se a gente fala baixinho, as pessoas tendem a murmurar, se bocejamos, daqui a pouco todo mundo começa a bocejar. Se estamos meio down, inevitavelmente as pessoas nos acompanham nesse sentir. E fica todo mundo com cara de poucos amigos. Podemos dizer então que além de sermos seres contagiantes, somos também epidêmicos. A gente dissemina doenças. - De vários tipos e etiologias, diriam os médicos -. Mas não quero saber dessas coisas de medicina, estou pensando é nesse poder disseminador que a gente tem. 

Que tal disseminar a doença dos sorrisos, das cores, das flores, dos aromas, dos amores? Aposto que logo, logo, vai virar epidemia! Que tal uma epidemia incurável de alegria? De entusiasmo pela vida? Uma epidemia do bem? Por que não? 

Claro que a nossa vida não é esse mar de rosas que andam vendendo por aí em todas as mídias. As coisas às vezes saem bem erradas, a gente luta e perde, perde-se coisas, perde-se pessoas. Sofremos roubos e traições. Mergulhamos num mar de tristezas, contradições e conflitos. 

Mesmo assim, passado o momento de sofrimento intenso, nada nos impede de renascer e disseminar coisas boas, podemos fomentar o entusiasmo pela vida. É dureza, eu sei, principalmente porque as pessoas que estão próximas são, muitas vezes, as mais turronas e difíceis de lidar. Mas pode ser que elas se contaminem e peguem as coisas boas, umas nas outras. E aí a boa doença se instala e vai se alastrando. Pense nessa ideia, não é simples, e a vida é simples, por acaso? mas quem pode afirmar que atitudes de alegria não possam ser a salvação contra a APATIA, esse mal terrível, outra pandemia que se avizinha e ameaça o mundo?


👀 👀 👀

quarta-feira, fevereiro 25, 2026

NO HOSPITAL

 

Poeira de estrelas


"Entre o céu e a terra há mais coisas 
do que sonha a nossa vã filosofia."
Shakespeare na peça Hamlet.

- Marli Soares Borges - 

 
Apaguei a luz e entreguei-me à quietude reconfortante do sono. Em instantes, um doce perfume tomou conta do ar e senti a presença de alguém. Abri os olhos e vi uma figura. Não sei explicar, só sei que não era apenas uma visão... era muito mais. Era uma vibração etérea e iluminada de amor. Ela aproximou-se e envolveu-me num abraço de luz. Meu corpo ficou tão leve que eu poderia voar! E uma paz profunda e indescritível tomou conta de mim. Então ela segurou, gentilmente, minhas mãos e falou: "você foi abençoada com a imortalidade pois cumpriu fielmente sua missão terrena. Assim que atravessar o Portal, você estará livre para evoluir em outros céus e poderá atuar em instâncias de amor que jamais imaginou. O corpo físico que você habita aqui na terra, retornará às estrelas". Estas palavras tocaram a minha consciência e me lançaram como flecha ao raciocínio da verdade. E me bateu uma tristeza imensa e meus olhos encheram-se de lágrimas. Vai passar, ela disse baixinho; teu coração ainda está mergulhado nas imposições da vida corpórea. Tenha fé... a claridade virá e a tristeza se dissipará feito neblina ao sol. Tenha calma, não haverá um salto brusco entre as realidades. Você permanecerá algum tempo por aqui, até que a temporalidade se curve e essa dor se amenize. Aceite com serenidade o ciclo eterno da vida. Cultive a paz no teu coração e sinta pulsar o amor divino em cada acontecimento de tua vida. E aproveita para preparar-te junto aos teus. Confia em mim. No momento certo eu voltarei para ajudar na travessia do Portal... e segurarei tua mão... e tua transição será suave como uma brisa de verão. Você não está sozinha, estamos sempre ao teu lado.  

O dia estava amanhecendo quando acordei. E o perfume permanecia no ar. Meu primeiro pensamento foi de gratidão pelo calor daquela luz do astral... e brotou em mim uma clareza de propósitos e uma vastidão de esperanças. (Na sequência chegou o técnico de enfermagem e me levou para fazer a ressonância magnética).

Contexto: estive dez dias hospitalizada e recebi alta ontem. Numa das noites de hospital, tive este sonho. Hoje, em casa, me veio tudo na cabeça de novo, aí lembrei da frase icônica de Shakespeare e resolvi anotar a lembrança aqui no blog, até porque é um sonho recorrente que já sonhei algumas vezes. 



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Nota 1 - editei para inserir o vídeo e avisar que já estou lendo e respondendo os comentários do post anterior. A seguir visitarei os blogs amigos, para leitura e comentários.

❤ ❤ ❤

segunda-feira, fevereiro 09, 2026

LETRAS POÉTICAS

          
Letras Poéticas



            - Marli Soares Borges -


Quanto querer, quanto quero,
Quanto quis, quanta quimera
Quisera quinhão que quero
Querer quanto quis, quisera. 

Quanto querer, que quimera!
Quem quer quanto, quer questão,
Quem quer quase, quis quisera
Qualquer queixa quer quinhão.

Quisera quem quis quimera
Querer quinhão quanto quis,
Quem quis, queria, quisera
Quem quer quase, quanto quis?

Quanto querer qualifica
Quem questiona qualidade?
Quem quer quitar quando quica
Quita qualquer quantidade.


terça-feira, fevereiro 03, 2026

A PATRULHA DA BONDADE


Le Déjeuner du chat (O almoço do gato)
Pintura da artista francesa Marguerite Gérard (1761–1837).



- Marli Soares Borges -

É bater e valer! Bastou eu dizer que entre adotar uma criança ou um animal, eu comprarei o saco de ração, e as "patrulhas da bondade" já surgem alucinadas do bueiro mais próximo. — "E as criancinhas?" perguntam indignadas. Estranho é que essa indignação nunca se traduz em um centavo sequer para ajudar uma criancinha. Aliás esses patrulheiros são pessoas incríveis, eles passam o dia inteiro salvando a humanidade... pelo teclado do celular.

Penso que amar os animais não exclui o amor que sinto pelo ser humano. Amo a todos indistintamente. Acontece que, no meu caso, entre adotar um animalzinho e uma pessoa, escolho adotar um animal. cada um é livre para escolher a quem ajudar. A lógica que fala ao meu coração me diz que o ser humano tem voz e tem leis que o protegem. Já o animal não tem nada disso. Ele é um ser indefeso por definição. Ele não tem advogado e não faz textão reclamando da vida. Sou pelos indefesos. Ao ver um desconhecido precisando de ajuda e um bicho no mesmo estado, meu GPS emocional recalcula a rota direto para o quatro patas.

É fascinante como as pessoas adoram meter a colher no altruísmo dos outros. "Olha, tuas atitudes de amor ao próximo estão mal direcionadas, por que gastar tanto tempo e dinheiro com gatos e cachorros? teu dinheiro deveria ser gasto com humanos, a vida humana em primeiro lugar!" Ah, me poupe, estou cansada dessas baboseiras. Meu coração não é um sistema de cotas e meu dinheiro não faz parte do orçamento público. 

Sou uma pecadora confessa. Cometo o terrível crime de olhar para um animal abandonado e sentir mais vontade de ajudar do que se fosse um ser humano. É um desvio de caráter terrível, eu sei. Aceito minha sentença condenatória pelo tribunal da internet e das calçadas. Mas isto não muda em nada minha posição. Continuo e continuarei a mesma: sou pelos animais e pronto. 

No meu tribunal particular, a inocência de quem não conhece a mentira sempre estará acima da complexidade de quem mente até para si mesmo. O mundo é dos humanos, mas o meu sofá — e a minha assistência — é dos bichos. Entre quem fala demais e quem apenas sente, eu já escolhi o meu lado. E ele mia e late.


💗 🐾💗 🐾💗 🐾💗

segunda-feira, janeiro 26, 2026

ONDE A VIDA ACONTECE

 

Imagem para inspiração

            - Marli Soares Borges -


De barro, amassado à mão,
Minha casa foi erguida.
Meu lar, minha proteção,
Neste chão que me dá vida.

Minha casa, meu torrão,
Aqui minha vida acontece.
Pedacinho de sertão,
Que meu peito não esquece.


❤ ❤ ❤

Minha participação na proposta da Lúcia
Blog Brincadeiras de Poetas - nº 3


quarta-feira, janeiro 21, 2026

PINTANDO POEMAS

  

Origamis dobrados por mim

                     
                 - Marli Soares Borges -


Palavras pintam poemas preciosos
planejam possibilidades
perpassam permanências.

Palavras protegem presenças 
potencializam programas 
proferem preces.

Palavras projetam prosperidade
pedem perdão
prometem perdoar.

Palavras plantam pensamentos
profundos, plenos, poderosos
pétalas prontas,
para promoverem a paz.  



💗 💗 💗 💗 💗 💗 💗 💗 



Minha participação na proposta da escritora e amiga Gracita Fraga

LETRA "P"