20 setembro, 2015

TE PUXA, TCHÊ!





Vinte de setembro, dia do gaúcho. Peço licença aos amigos de outros pagos. Hoje quero abrir as portas do rancho e abraçar a minha gente. 

Gauchada dos Pampas! Meus respeitos. 

Te aprochega, criatura, vem matear conosco! O pessoal tá loco de faceiro, tem festa aqui na querência! A chuva tá danada e o frio tá de renguear cusco, mas, bueno, faz parte! 

Tchê, há tempos eu queria dar uma proseada contigo, e antes que eu envelheça demais, acho que chegou a hora. Mas sossega, não vou chorar as pitangas, só vou falar despacito, ver se alcanço uma pontinha do teu coração.

Já vivi muito e cada vez mais me abobo com a falta de educação de uns viventes aí, que insistem em te ridicularizar por causa do teu jeito gaúcho de ser. Tchê não leva a sério essas atitudes. Esses viventes não têm história e para disfarçarem a inveja, tentam te atingir e te deixar embretado. Mas não há de ser nada, não te mixa e nem aceita provocações. E nada de sentar o braço neles! Tem piedade, são uns taipas. E além do mais, de vareio nem vale a pena! 

Continua firme, valoriza a vida campeira, o pampa, o pingo e o chimarrão. Lembra que em tuas veias corre o sangue gaudério e reverencia nosso passado e nossas façanhas, mas não te esqueças de acompanhar o progresso e aproveitar as melhorias da modernidade. Estuda e te educa, cultiva a sensibilidade e a empatia. Te puxa, tchê, e reconhece teu próprio valor! Sempre. E conserva tuas virtudes. Elas são garantias concretas -- as únicas -- que jamais te deixarão ser escravo de ninguém.

Agora, umas palavrinhas sobre nossa cultura gaúcha.

Quando em nome do progresso e do desenvolvimento, fores rever nossa cultura gaúcha, -- porque os tempos mudam e a gente precisa evoluir --, cuida para que não deturpem as coisas daqui do pago, o chimarrão, o churrasco, o arroz de carreteiro, os bate-coxas, as pilchas, os "causos" e o nosso linguajar, tão nosso. Lembra-te: um povo sem tradição carrega uma sina infeliz. 

Mas cuidado, tradição não é a mesma coisa que tradicionalismo! 

Tradição é cultura e não se opõe ao progresso; está pronta a reconhecer os erros passados e adaptar-se a realidade atual para melhorar a vida. A tradição é sensível para a obrigação que temos de encarar e questionar -- cada tradição --, com a consciência de que não somos obrigados aceitá-las como fatos irrevogáveis. Qualquer tradição que seja feita de sadismo, de sofrimento, de atavismo e divertimento boçal com os seres vivos, -- no caso, os animais --, não se justifica. Nunca se justificará. Não é humanamente aceitável, tal como não é humanamente aceitável apedrejar mulheres ou mutilar os órgãos genitais dos homens. Há tradições boas que devem ser mantidas. Outras não. Tradição é apenas um folclore e não pode sobrepor-se as leis e ao progresso. 

Tradicionalismo é outra coisa. É apenas um "ismo" e comporta-se como todos os "ismos" da História: em permanente obstinação, avessa a mudanças e resistente ao cumprimento das novas leis que sinalizam o avanço social. Infelizmente aqui no Rio Grande do Sul ainda têm alguns viventes, muito toscos, que vivem aprisionados a um tradicionalismo que nem eles sabem o que significa. Alguns até se intitulam adeptos do "tradicionalismo gaúcho". (?!) E com seus "ismos", tentam obstinadamente perpetuar o passado, repetindo os erros já cometidos. Um miasma que só serve para perpetuar a barbárie e deixar um rastro de sangue e dor na vida dos animais. Esse tipo de gente acaba denigrindo os objetivos dos verdadeiros tradicionalistas. Sei que aconteceram atrocidades no passado, mas aconteceram devido ao desconhecimento e ignorância daqueles povos de antigamente. E sei que isso não foi só nas bandas aqui do sul, aconteceu também em outros lugares desse Brasil. Mas hoje em dia, com a evolução, ninguém mais admite violências que tais. E as leis estão aí, para comprovar o novo pensamento jurídico que orienta essas relações. Mas os "ismos" da história parece que não sabem ler, pois ainda insistem em continuar..., insistem em andar abraçados com a judiaria, crueldade e maus tratos aos animais! Que o Patrão Velho, com sua infinita bondade e baita coração, tire essa gente das trevas e os leve em direção à luz! 

Escuta bem, tchê, a brutalidade no trato com os animais não é e nem nunca foi tradição gaúcha! Isso é intriga desses merdas, que vivem arrotando um "tradicionalismo" grosseiro e ordinário; gente perversa e interesseira que cospe no prato onde come; gente que acha certo tratar animais como escravos. Acho isso uma barbaridade e me tapo de nojo, só de pensar! Tchê, me ouve só mais um pouquinho: não larga de mão o amor, o respeito e a compaixão pelos animais. Respeita-lhes a dignidade e ameniza-lhes o sofrimento. Os animais são teus companheiros e te ajudam a ganhar o pão. E dependem de ti para viver... e muitas vezes para morrer. Lembra-te: somos gaúchos!

Bueno tchê, me desculpe a embromação, é que esse assunto me deixa muito atucanada. Mas vou parando por aqui, que meu fraseado ficou mais comprido que suspiro em velório e, Deus sabe, não quero te chatear. Parabéns a todos nós, gaúchos e gaúchas de todas as querências. Que a Virgem Maria, primeira prenda do céu, olhe por nós, e que o Patrão Celestial nunca nos abandone.

Marli Soares Borges, 2015.
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