04 novembro, 2014

LIVRE ARBÍTRIO E DESTINO


livre arbítrio
“Um erro traz sempre um erro.
Desafiado o destino, tudo será destino."

(SÓFOCLES, Antígona)

Jean Paul Sartre escreveu que viver é ficar o tempo todo se equilibrando entre as escolhas e as consequências. A bem da verdade não tenho certeza se a autoria desses dizeres é mesmo de Sartre, vi assim na internet. Mas enfim, concordo com o que está dito, na medida em que podemos exercitar o livre arbítrio e escolher isso ou aquilo. E arcar com o resultado, o que é totalmente lógico, afinal somos seres dotados de pensamento e raciocínio. Mas até que ponto podemos realmente escolher nosso futuro? O livre arbítrio é tão livre assim? E o destino, será que ele existe mesmo?

Não sei.

Penso que livre arbítrio e destino são questões imbricadas na vida. Não acredito em destino como coisa imutável que irá ocorrer custe o que custar. É que isso simplesmente isentaria as pessoas de assumirem a responsabilidade pelos seus atos. Aliás, não consigo imaginar como se sustentaria a ideia de responsabilidade moral, sem o livre arbítrio. Se o criminoso não podia evitar o delito, como atribuir-lhe a culpa? A meu ver o destino é pura manifestação do Karma que, por sua vez, é o resultado de sucessivos exercícios do livre arbítrio. E nesse compasso, respondendo ao nosso modo de agir, o destino estará sempre mudando. É totalmente mutável e está em nossas mãos. A propósito, li alguns estudos onde ficou demonstrado que nos países onde as leis de trânsito são respeitadas, morre-se menos por acidentes automobilísticos. 

No tocante ao livre arbítrio, já li algumas discussões teóricas defendendo sua não existência, mas na prática, todo mundo acredita que é livre para escolher dentre várias opções, dado que toda ação humana implica escolher uma possibilidade e rejeitar outras. Acho absurdo supor que o exercício do livre arbítrio seja imune a influências externas, pois quem de nós não sofreu na pele o resultado de acontecimentos completamente alheios à nossa vontade? Óbvio que isso nada tem a ver com destino. São apenas as contingências da vida, as incertezas e eventualidades, os acidentes, que fogem ao nosso controle, embora interfiram direto em nossas escolhas. Nessas condições, uma vez sujeito a contingências, fica evidente que o livre arbítrio não é tão livre assim. Há fatos que simplesmente temos de suportar, coisas que jamais escolhemos, as doenças na velhice, por exemplo.

O quê? Suas dúvidas aumentaram? Toque aqui, as minhas também. Quanto mais se aprofunda a reflexão, mais dúvidas aparecem. Mesmo assim, em poucas palavras, arrisco-me a expor o que penso, aqui e agora: acredito que tudo o que a gente vive, ressalvadas as contingências da vida, são frutos das escolhas que fizeram por nós na infância, e das nossas próprias escolhas na vida adulta. E também das nossas não-escolhas, coisas que a gente renuncia mas que ficam guardadas como parte de nós. -- Se bem que a não-escolha pode, inclusive, ser tida como outro tipo de escolha --. E também acredito num detalhe que traduz em nós a presença de Deus: nosso eu interior, essa inteligência cósmica que nos ajuda a transcender na fé e, em certos momentos, a afastar as energias imponderáveis do Karma.

Marli Soares Borges
(escrevi esse texto em 2013)
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