16 junho, 2010

PINÓQUIO

Olá !!

Hoje tô com vontade de falar um assunto sério. Por isso vou falar no Pinóquio. O verdadeiro. De vez em quando me dá umas venetas e eu fico muito séria mesmo. Primeiro: tenho medo de adaptações, de qualquer tipo. Segundo: me dá uma tristeza ver como as pessoas se atravessam nos textos alheios, cortam palavras, truncam os textos, enxertam, fazem colchas de retalhos. Grrrr. Vi umas coisas por aí que me arrepiaram. Então, para me acalmar, lá vai o Pinóquio. Prepare-se esse é um postão!!! Rsrs. Mas se você tiver paciência e ler até o fim, você vai aproveitar. Verdade.

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-- Não minta que seu nariz vai crescer igualzinho ao do Pinóquio!!!
Foi assim que me apresentaram Pinóquio, um menino que tinha um nariz grande de tanto mentir.

A história mais conhecida pode ser resumida em poucas palavras: Um carpinteiro chamado Gepeto constrói um boneco de madeira, que tem vontade própria: pode falar, rir, chorar, dançar e fazer travessuras, como qualquer criança. Ele mentia e seu nariz crescia. O maior desejo dele era tornar-se um menino de verdade. E foi isto que aconteceu. Em outras palavras, Pinóquio é um boneco que se transforma em gente.

Li o livro "As Aventuras de Pinóquio" (adaptação de Disney) quando tinha 10 ou 12 anos, nem lembro mais... Só muito tempo depois tive a oportunidade de ler a tradução completa do original. Foi então que pude reconstruir as recordações e perceber como estava distorcida a história que eu havia lido na infância. Percebi que aquele boneco domesticado e infantilizado que eu havia conhecido, não era o personagem que o autor havia imaginado e construído na história original. Na verdade, do original não restou nem o nome. O que restou, foram apenas os elementos indispensáveis à formatação do perfil da história. E, ainda assim, de modo muito superficial. Na adaptação, o boneco aparece, inocente como um bebê, e sempre à mercê do Grilo que lhe ensinava o que fazer. Observe o desenho que ilustrou a adaptação de Disney. O boneco é bem infantil.



Mas o verdadeiro Pinóquio não é um personagem inocente e nem tampouco carismático. Para mim, ele é um anti-herói, (veja na introdução do livro, que bem antes de ser esculpido ele já se rebelava ...) um boneco cheio de dilemas e ambiguidades, a representação concreta da falta de comprometimento, da negação da lei, e, principalmente da teimosia em buscar o prazer absoluto. Busca que sabemos, está presente em todos nós, mas tem que dar lugar ao princípio da realidade para que o processo civilizatório possa acontecer e manter-se em patamar aceitável. Melhor dizendo, a realidade exige de nós a capacidade de tolerar a frustração. Temos que entender que não podemos satisfazer nossos desejos imediatamente com ações impulsivas. Mas isso implica numa tomada de consciência, exatamente como acontecia com Pinóquio, na medida em que suas repetidas mentiras eram sempre acompanhadas de crises de consciência ao reconhecer o erro. E é bem assim que acontece com os seres humanos. Veja que por seu temperamento rebelde, o boneco sempre percorreu o caminho mais difícil para aprender a responsabilidade!

Essa confusão mental que permeia a vida de Pinóquio é que no meu pensar, fez dele um personagem fantástico, refém de seu caráter voluntarioso e rebelde. Observo ainda que o autor não se deteve no caráter transgressor da mentira, ele preferiu inseri-la num contexto muito mais amplo, como parte dos hábitos que alicerçam nossos valores sociais e afetivos. A história fez emergir não só a dificuldade do personagem em controlar seus impulsos mentirosos para evitar que o nariz crescesse, mas também a dificuldade real dos pais em educar seus filhos.

Muito, mas muito diferente do Conto de Fadas de Disney!

E, por aí vai. No meu entender, a história original além de comovente traz uma critica social muito severa em relação às questões familiares e sociais, como a pobreza, a fome e a educação. Transitou inclusive pela precariedade do funcionamento das Instituições públicas.

Agora, debruçando-me sobre a adaptação que Walt Disney nos ofertou, os recortes que fez do original, penso que, efetivamente a história foi reduzida a um singelo maniqueísmo infantil. Mas nesse caso, a adaptação ostentou um cunho pedagógico. Ele fez um livro "de ensinamento". Talvez, a sociedade da época estivesse carente de uma ferramenta que pudesse ser utilizada na educação das crianças, que ajudasse a melhorar o comportamento social. Percebendo essa carência, Disney trouxe para o livro a compreensão da mentira e a internalização das regras. E isso foi positivo, no meu entender.

Também é de ser reconhecida a visão empreendedora de Disney que "sentiu" a oportunidade de ganhar dinheiro com a história. E ganhou. E com o filme também. E não se pode negar que a adaptação também tem conteúdo suficiente para provocar inúmeras leituras.

Aqui finalizo esse post. "E foram felizes para sempre".  Mas que fugiu do original, fugiu. E eu sigo tendo medo de adaptações. (E de correções e traduções também, hehe, tô muito medrosa hoje).

Noutra oportunidade retomarei o assunto, pois sei que esse livro é muito polêmico. Não é sem razão que "PINÓQUIO" é hoje considerado um dos pilares da literatura italiana, juntamente com Decameron e A Divina Comédia.


NOTAS:

A história original, com o título "História de um Boneco",  foi escrita no formato de folhetim, entre os anos de 1881 e 1883, pelo italiano Carlo Lorenzini, cujo pseudônimo era Carlo Collodi. Os capítulos eram publicados num jornal infantil semanal de Roma — o Giornardi dei Bambini — e foram concebidos lentamente pelo autor, que interrompeu a escrita inúmeras vezes, retomando-a quando pressionado por seu público. Foram principalmente as crianças que gostaram da trama e pediram a Collodi que a prosseguisse. Quando as histórias foram reunidas num livro, o nome adotado foi "Pinóquio" simplesmente.




Esta imagem foi desenhada entre 1852 e1910 por Enrico Mazzanti para ser a capa da primeira edição de "Pinóquio" que saiu em 1883.



Mais tarde, em 1940, já no século XX, Walt Disney adaptou a história, criando a sua versão: As Aventuras de Pinóquio.


Tchau, gente, Até breve!

P.S. Eu avisei que era um postão! hehe
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