Transição profunda -
Um novo conceito de viver.
- Marli Soares Borges -
Falar em transição planetária geralmente nos remete a cenários apocalípticos, cataclismos ou profecias distantes. No entanto, a perspectiva que trago aqui finca suas raízes na visão espiritualista: não se trata do fim do mundo físico, mas sim do fim de um modelo de mundo.
Segundo as correntes espiritualistas, estamos diante do nascimento de um novo conceito de viver. Um processo evolutivo no qual a Terra deixa de ser um mundo de provas e expiações — marcado pelo sofrimento — para se transformar em um mundo de regeneração guiado pelo equilíbrio, pela paz, pela cooperação e pelo predomínio do bem. Não se trata de um evento geográfico ou cósmico imposto de fora para dentro, mas do resultado de uma mudança coletiva, moral e interior. Essa transição traz consigo uma verdadeira revolução cultural, social e ética. Fica evidente, portanto, que a transformação do planeta depende, obrigatoriamente, da transformação de cada um de nós. Tudo está conectado: nossas atitudes, não importa onde vivemos, repercutem em todo o universo.
Para compreender a necessidade desse movimento de "limpeza" ou reajuste vibracional, basta olharmos ao redor. Até aqui, a humanidade operou sob a lógica da sobrevivência e da disputa. Aprendemos a viver contidos, cada um trancado em sua própria comporta, represando o amor, sufocando o afeto e menosprezando a alma. Seguimos sem olhar para o lado, mantendo a postura exata que a engrenagem social espera de nós: sorrisos polidos, passos previsíveis, respostas automáticas. Criamos diques invisíveis para conter nossas frustrações. É seguro viver assim? Parece que sim, pois evita estragos. Evita estragos, mas também seca a vida.
Manter as comportas fechadas impede a fluidez da existência que, em sua essência, é correnteza. O pior é que fazemos isso todo o santo dia: nos trancamos no medo irreal de transbordar e isolamos a possibilidade de um encontro real com o outro, e ele — mesmo sendo nosso conhecido ou amigo passageiro — se torna apenas alguém que também assiste à passagem do tempo pelas frestas do próprio isolamento. Olhamo-nos de longe, mas não nos tocamos.
Nessa economia de nós mesmos, deixamos de estender a mão à alegria, poupamos o abraço que poderia aquecer o inverno de alguém e silenciamos a palavra que salvaria um entardecer. Com atitudes assim, acabamos sabotando nossa própria felicidade. Recusamos as oportunidades que o acaso gentilmente nos ofereceu. E, sem essas confluências, o que resta da vida? Um rio seco, leito vazio, pedras expostas e água parada. O coração ainda bate, mas avisa: água parada adoece.
É por conta desse cenário tóxico que, hoje, milhões de pessoas estão despertando para chamados internos urgentes de empatia e sintonia. Há um verdadeiro despertar coletivo em marcha: um desejo profundo de parar de viver sob o comando do medo e da insegurança material. Chega! O planeta já não suporta os velhos moldes da ilusão materialista. O ter já não preenche o vazio do ser. Buscamos afinidades vibratórias, confluências de afeto, almas que caminhem conosco na mesma direção.
Sei que mudar não é fácil. Mas a mudança verdadeira não exige uma tempestade destruidora do dia para a noite. Ela é um aprendizado sutil, um lento desatar de nós. Começa pelo gesto simples — e corajoso — de girar a válvula e abrir uma pequena fresta na comporta, exercitando o perdão, a compaixão, a caridade e, sobretudo, a responsabilidade com o pensamento coletivo. Há que se ter vigilância nos pensamentos, pois a transição exige sintonia fina. Quando sentir que sua mente começa a acelerar ou a focar no negativo, mude o foco de seus pensamentos e liberte-se.
Pensou que eu tinha esquecido? Não. Eu jamais esqueceria o ponto de partida indispensável para qualquer mudança real. O autoconhecimento. Limpar a mente das falsas certezas, descobrir quem realmente somos e identificar o que precisa ser transformado é essencial. O processo é difícil e complexo. Mas sem ele, qualquer tentativa de mudança será superficial ou repetitiva: é pegar o que estamos colhendo sem compreender o que estamos plantando. Para a regeneração do mundo é crucial voltar o olhar para dentro de nós para que possamos entender, resolver, assumir a responsabilidade concreta e mudar a vida do planeta.
A propósito, na psicologia analítica, Carl Gustav Jung descreveu a "transição planetária" como uma transição profunda na consciência coletiva da humanidade. Escutar alguém, dar um sorriso, não revidar uma ofensa é o passaporte vibracional para a Nova Terra. (Ele não abordou o tema no sentido espiritualista ou esotérico popular). Para ele, vivemos uma verdadeira metamorfose da alma humana, onde somos forçados a encarar nossa própria "sombra" coletiva para que uma nova consciência — mais integrada, pacificada e menos fragmentada — possa, finalmente, emergir.
Afinal, "para mudar a qualidade da água que corre no rio do mundo, precisamos primeiro limpar a fonte que brota dentro de nós".
- Em tempo:
- Este tema é amplamente estudado na Doutrina Espírita e detalhado em obras como o livro "Transição Planetária" (psicografado por Divaldo Franco) e nas bases da codificação de Allan Kardec.
- Carl Gustav Jung foi um psiquiatra e psicoterapeuta suíço, reconhecido mundialmente como o fundador da Psicologia Analítica.
- Inconsciente coletivo (termo cunhado por Jung): é a camada mais profunda da psique humana, compartilhada por toda a humanidade e herdada biologicamente e psicologicamente, e não adquirida por experiências individuais.
- Pensamento coletivo na visão espiritualista: campo de energia que nos envolve como pessoa, no ambiente ou em todo o planeta, formado pela soma de todos os pensamentos, sentimentos, palavras, emoções e atitudes.
- Imagem retirada do Google.
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