| Dongo se achava muito esbelto, rs |
- Marli Soares Borges -
Dongo foi a personificação da dignidade felina. Este frajola de olhos dourados, resgatado do lixo (pela minha nora), veio para cá, pouco mais que um recém nascido. Mas o bebezinho frágil cresceu, e logo assumiu o comando da minha casa com a perfeição dos mestres. Era de poucas palavras, uma autoridade verdadeira e silenciosa. Nos últimos tempos, seu maior prazer era cochilar no sofá ou na minha cama, absorvendo o sol da tarde, um ritual de anos a fio que me parecia imutável. E adorava um ar condicionado. Eu e o Nilton estávamos sempre de olho nele e fazendo tudo o que estivesse ao nosso alcance para que ele vivesse feliz. E acho que ele era feliz. E muito. Pelo menos era o que ele nos transmitia com seu modo de ser.
Mas o tempo, que não perdoa nem mestres nem gatos, começou a cobrar seu preço. Notei primeiro uma mudança sutil no som do ronronar; um leve chiado, quase imperceptível. — Ele estava com onze anos.
A apatia que se seguiu foi alarmante. Dongo, que, embora nunca tivesse sido um gatinho dinâmico e atleta, costumava sempre responder aos carinhos com um ronronar satisfeito, mostrando a barriga e se esfregando na gente. Mas agora apenas piscava lentamente aqueles seus olhinhos dourados e expressivos. A respiração, antes um movimento suave do flanco, transformou-se em um esforço visível, um balanço rítmico e desesperado do abdômen que lembrava o movimento de um peixe fora d'água. Ele deitava-se com o pescoço estendido, como se buscasse mais ar. Em dois dias, ele começou a tossir.
E o pânico tomou conta de mim. Em minha mente, cheguei a ouvir o som do mar preso no peito do meu querido gatinho — um som úmido e estranho.
A viagem de emergência ao veterinário foi um borrão de ansiedade e meu filho, com os olhos marejados de lágrimas, foi incansável nos carregando pra lá e pra cá. O diagnóstico veio rápido e grave: efusão pleural. Havia líquido acumulado no espaço pleural, comprimindo os pulmões do Dongo e impedindo-o de respirar adequadamente. Era uma emergência médica.
O veterinário da Clínica agiu com precisão. “A internação deve ser imediata. Precisamos drenar esse líquido sem demora. Ele não consegue mais trocar oxigênio suficiente."
Dongo foi submetido a uma toracocentese de emergência. A remoção do fluido foi para análise e revelou-se inconclusiva. Poderia ter várias causas, inclusive câncer. E me bateu o desespero, o que poderia ser? — mas o melhor mesmo é que a toracocentese de emergência trouxe alívio imediato e visível —. A cor rosada voltou às gengivas pálidas do Dongo e o esforço respiratório diminuiu drasticamente. Teve alta, e no dia seguinte levamos ele na médica veterinária de nossa confiança, aquela que sempre o acompanhava para saúde, vacinas, unhas e higiene em geral. Ela fez um exame clínico completo e examinou todas as imagens e os laudos de todos os exames. Deu-nos as explicações que julgou adequadas e prescreveu os medicamentos. Foi comprovada a pneumonia.
A crise passou, mas a vida do Dongo mudou para sempre. Ele agora tinha uma condição crônica que exigia manejo contínuo. O tratamento emergencial envolveu seis injeções que o ajudariam a eliminar o excesso de líquido e impedir que o "mar" voltasse a se acumular em seu peito. E teve início uma rotina contínua e sistemática de “bombinhas” para a respiração. A bombinha, antes um objeto estranho, passou a ser uma aliada diária para garantir que ele respirasse melhor. Duas vezes ao dia, ele recebia sua "nuvem de ar", um ritual que se tornou vital para sua qualidade de vida. Para sempre, sem parar.
Minha filha encarregou-se das seis injeções iniciais e eu e o Nilton nos transformamos em enfermeiros dedicados. Dongo, com a sabedoria dos idosos, aceitou seu destino com serenidade. Ele aprendeu que, embora a bombinha não fosse lá essas coisas, ela trazia de volta o conforto do ar. Quando a gente viajava, meu filho se encarregava dessa tarefa.
Minha cama e meus lugares preferidos da casa continuavam pertencendo ao Dongo. Assim que eu levantasse de onde eu estivesse, ele se materializava imediatamente naquele lugar. Mas ele sempre preferia um colinho. Era eu sentar no sofá ou em qualquer lugar e ele pulava pro meu colo. Felizmente, a tosse e o chiado desapareceram.
Logo que a gente sai da varanda do meu quarto, há umas folhagens bonitas na terra e nós batizamos de "a selva do Dongo" porque ele gostava dali. Mas depois da crise ele nunca mais andou pela “selva” como antes. Raramente ele dava uma saidinha de minutos e voltava em seguida. Eu ficava junto com ele, observando as mudanças, mas estava feliz porque a paz havia retornado ao seu peito e ele respirava devagar e profundamente, com uma gratidão silenciosa que apenas meu querido Donguinho saberia expressar. O barulho do mar revolto tinha ido embora, substituído pelo som suave e rítmico de uma respiração normal. E esse som, para mim, era a mais bela melodia do mundo.
Dongo comia somente sachê. Ração seca não era com ele. E os sachês tinham que ser variados, nada de aceitar promoções deste ou daquele e comprar um monte de cada vez. Ele não gostava de rotinas alimentares assim. Ele queria vááários tipos e sabores de sachês. E nós obedecíamos fielmente, afinal a última palavra era dele e ele sabia se fazer entender.
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É imensa a gratidão que sinto por este gatinho querido que só me deu alegrias. Dongo foi meu gatinho, meu companheiro, meu terapeuta incansável 24 horas por dia e meu grande amigo. Uma doçura em pessoa. Ao longo de 13 anos de convívio ele ensinou-me grandes lições de vida. Morreu como viveu, com a dignidade de um mestre.
Estou escrevendo e chorando a morte do meu doce Donguinho. Estamos chorando, eu e o Nilton. E sei que choraremos muito mais. Mas sei que essa dor inicial vai passar e dará lugar a uma saudade profunda. Meu coração quebrou-se em mil pedaços e estou tentando colar com precisão, pois um coração sereno é uma das ferramentas indispensáveis para enfrentar as surpresas da vida.
Aqui encerro um maravilhoso ciclo de minha vida, que iniciou-se em fevereiro de 2013, com a chegada do Dongo e encerrou-se em março de 2026. Foram treze anos de alegrias, carinhos, emoções, reflexões e aprendizados. Muito obrigada, Dongo, por você ter estado conosco e ser quem você foi.
😺🌻🐾💔
Entrego, confio, aceito e agradeço.
Que bom que tu e toda família cercou DONGO de todo carinho que ele mereceu m tanto na saúde, como na doença. Uma pena que ele partiu. Mas ficam as boas lembranças desse lindo convívio e amizade!
ResponderExcluirÉ muito triste quando partem! beijos,chica
É verdade, Chica. Infelizmente, não temos o controle de nada.
Excluirbjssssssss
Lindo o teu carinho, Marli. Os animais merecem todo o nosso cuidado e atenção. Lamento, querida Amiga e deixo-te um beijinho muito especial 🌻🌻
ResponderExcluirObrigada, Emília.
ExcluirBjssssss
É verdade, quando os patudos entram nas nossas vidas dá-se uma amizade recíproca que depois é difícil desatar.
ResponderExcluirAbraço de amizade.
Juvenal Nunes
Obrigada, Juvenal.
ExcluirBjssssss
Oi, Marli! É tão triste quando isso acontece, não é? Eu perdi uma gatinha que viveu anos comigo. Esses bichinhos acabam por deixar a ausência em nós que somente o tempo irá apagar. Fique bem amiga. Um fraterno abraço!
ResponderExcluirE que ausência eles deixam em nós!
ExcluirObrigada pelas palavras.
Bjssssssss
Oi Marli,
ResponderExcluirlamento muito a partida do Dongo! Por teu tocante relato, com certeza, Dongo foi muito feliz. Agora é confiar que o tempo acalme a tristeza e dê lugar a saudade terna do bichano querido.
Também tive um grande amigo que ficou ao meu lado 16 anos.
Receba meu abraço especial!
Obrigada, Calu. Deus queira que ele tenha sido realmente feliz. A gente nunca sabe, não é? Pelo menos, fiz o que pude.
ExcluirBjssssss
Que o teu coração e da tua família sejam confortados nessa delicada hora, Marli.
ResponderExcluirA partida desses amigos especiais, de fato, marcam o encerramento de ciclos pra gente, fortalecendo a nossa consciência de que devemos respeitå-los e não explorá-los.
Obriga, Cesar.
ExcluirJá estou recebendo este conforto através de tuas palavras tão sensíveis e oportunas.
Bjsssssssss
Puxa... Que triste quando chega esse dia.
ResponderExcluirA minha gatinah de 14 anos também se foi em dezembro.
Linda.
Morreu velhinha e tranquila.
Depois de operar dois tumores nas mamas ela melhorou, mas depois de três meses não queria amis comer nada e logo se foi.
É triste mesmo.
Antes dela eu tive outra que viveu 18 anos.
Morreu de velhice.
Os cachorros também deixam tristeza.
A gente fala: Nunca mais vou pegar mais nenhum.
Passam-se 3 meses e o filhote está lá.
Dando alegrias.
Um abraço minha amiga.
Daqui a 3 meses pode adotar o novo amiguinho.
Já vou votar por um nome: Colorado.
Um beijão pra vocês todos.
Com certeza, André, todos os nossos animaizinhos queridos marcam a nossa vida e quando partem, deixam saudades. Faz um tempão que eu tinha um quiri-quiri que vivia solto aqui no sítio. Era do meu coração. Jamais o esquecerei. Já contei a história dele aqui no blog. (Mas uma coisa é certa mesmo: não vou pegar mais pets, minha saúde está muito debilitada e preciso cuidar de mim..., sabes como é, rs... quero ficar mais um pouco por aqui, rs).
ExcluirBjssssssss
Sei como dói... mas é inevitável...
ResponderExcluirAnima-te, amiga, sabes que tens de manter o ''astral'' elevado.
Abraço grande.
~~~
É verdade, não temos o controle de nada.
ExcluirBjssssssss
Bom dia, Marili.
ResponderExcluirSolidarizo-me contigo pelo passamento do Dongo
tão amado, cuja presença te deixava muito feliz.
Na implacabilidade do tempo estamos sujeitos a
estas situações de tristeza, querida amiga, e como
já dizia o filósofo Heráclito: "tudo flui e nada dura
para sempre".
Resta as lembranças dos bons momentos vividos
com o Dongo e a certeza do grande amor que lhe foi
dedicado, e isto haverá de reconfortar o teu coração.
Profunda paz e um terno abraço.
Sim, Antenor, esse amor é meu conforto para suportar essa perda. Obrigada pelas tuas palavras tão lindas e reconfortantes.
ExcluirBjssssssss
Today I have 5 kittens and I understand your pain, because I lost my Greta when she was 15 years old (a name given by my mother in homage to Greta Garbo), my cat from the time I was single. Losing a feline friend is very painful for those of us who love cats. Today she is still in my house, in a small box with her ashes and a photo of her. Reading your moving text also made me cry, for Greta, for Dongo, and for so many other four-legged friends who have already passed away.
ResponderExcluir(ꈍᴗꈍ) Poetic and cinematic greetings.
💋Kisses💋
Oh, my friend!
ExcluirThen you know very well what it's like to lose a feline friend. It's incredibly painful. Dongo was also cremated and is in the "jungle," in a small box with his ashes.
Thank you for commenting.
Hugs and kisses!
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Tradução:
Ah, minha amiga!
Então você sabe bem como é perder um amigo felino. É doloroso demais. O Dongo também foi cremado e está na "selva", em uma pequena caixa com suas cinzas.
Obrigada por comentar.
Bjssssssssss
Lamento. A partida dos animais que nos acompanham com carinho é sofrida. Eles alegram e dão carinho aos seus cuidadores.
ResponderExcluirmeu forte abraço.
Fiz um conto com uma realidade em que os protagonista acalentaram, mesmo sem saber o cotidiano de muitos.
https://pensandoemfamilia.com.br/contos/o-sorriso-do-samoieda/
É verdade, Norma, a gente sofre muito.
ExcluirObrigada por comentar
Bjssssssss
É sempre dolorosa a partida de um animalzinho depois de fazer parte de nossa vida.
ResponderExcluirComo você disse, os gatos também morrem ainda que sete vidas tenham.
Eu tive em crianças vários tipos de bichos e sei o que é a perda deles.
Uma semana leve para você e Nilton.
Bjs de paz amiga.
Obrigada, Toninho.
ExcluirÉ muito bom quando a gente encontra aqui na blogosfera, amigos que realmente entendem esse tipo de sentimentos que nutrimos pelos nossos animaizinhos.
Bjsssssss
Ohhhh Marli, lendo o seu relato as lágrimas rolavam pois eu sei muito bem como é perder um serzinho de luz como são os gatinhos...
ResponderExcluirQue gracinha o Dongo, um Frajolinha perfeito que ganhou o coração da família inteira. Mas quando se vão, deixam um vazio imenso. A dor é como se estivessem esmagando o nosso peito, perdemos até a respiração... Os gatos são protetores do lar, eles estão conosco para nos curar. O ronronar deles é a melhor frequência de cura do mundo Marli, você vai sentir muita falta do ronronar, mesmo que nos últimos tempos tinha dentro dele o barulhinho do mar...
Minha gatinha Miminha, uma siamesa de olhos azuis da cor do céu, se foi também velhinha e doentinha, mas o tempo em que ela permaneceu comigo foi a melhor parte da minha vida!
Força querida, a dor é forte, mas ela ameniza com o tempo...
Mas você jamais se esquecerá do Dongo, ele faz parte de você para toda a vida, no infinito e no além!!
Beijinhos!!
Obrigada, querida Adriana,
Excluircom certeza, a dor é forte, mas, você tem razão, ela ameniza com o tempo... Ah, com certeza, jamais esquecerei do Dongo, ele faz parte de mim.
Bjsssssssssss
É triste dizer adeus a um amor.
ResponderExcluirNova tirinha publicada. 😺
Abraços 🐾 Garfield Tirinhas Oficial.