domingo, março 09, 2014

DO NASCIMENTO À MORTE

Pintura de Georgia O'Keeffe

Sorry, não torça o nariz, 8 de março é dia de alegria e não podemos passar em branco. "Dia Internacional da Mulher" é dia de saudar-nos umas às outras. Dia de abraços e apertos de mãos. E também de agradecer às mulheres e homens -- muitos deles -- que no passado deram seu sangue para que hoje pudéssemos ostentar os documentos que identificam nossa cidadania.


De lá para cá, estamos avançando a passos rápidos e somos vencedoras na luta pela conquista de nossos direitos. Somos unidas, inteligentes e informadas. Aprendemos a nos articular nos conflitos. Aprendemos que a união é nosso trunfo e estamos abandonando -- aos poucos, é verdade -- a maldita rivalidade que tanto nos escravizou e detonou nossa auto-estima, naqueles tristes tempos em que a gente não era ninguém. Aprendemos a ser solidárias umas com as outras. Confiamos em nós. E digo isso sem medo de errar, porque ninguém consegue avançar no campo dos direitos sem essas qualidades. Portanto, aviso aos navegantes: desistam de tentar nos jogar umas contra as outras. Isso de "dividir para melhor reinar" já era, e cá entre nós, foi um golpe baixíssimo que nos aplicaram durante quase um século e, reconheço, foi uma pedra no nosso sapato, e nos enfraqueceu demais como sujeitos de direitos. Ainda bem que conseguimos neutralizar os ataques e, hoje em dia, somos independentes de dentro para fora. E isso nada tem a ver com sustento, com riqueza, com independência financeira e tals. Nada mesmo. A independência emocional se alicerça em outros fatores e tem outra natureza. E não guarda qualquer relação com a classe social, é igual para todas. A gente simplesmente pensa com a nossa cabeça.

Aleluia!

Mas não pense que estamos com a vida ganha. Não mesmo. Ainda tem muito chão pela frente e muitos direitos a conquistar. Estamos engatinhando na arte de lidar com os homens. Eles não são fáceis quando se adentra no campo dos direitos, o que torna complicado ser mulher. Por exemplo, até hoje, no trabalho, ainda não estamos concorrendo com eles em igualdade de condições. Temos sempre de ser melhores, MUITO melhores. E isso é uma injustiça. Calma. É só uma questão de tempo, as mudanças acontecerão, acredito. E tem muito mais coisas, outro dia escrevo sobre. Agora um alerta, please, não caia naquela conversinha rançosa de que não é pra gente perder a ternura, que não precisamos competir com os homens porque já nascemos na frente e blablablá. Era o que nos diziam lá nas cavernas, para nos engambelar e surrupiar nossos direitos. Chega de papo furado. Nossos direitos são sagrados e vamos continuar lutando por eles. Todos os direitos que temos agora, tiveram de ser conquistados na marra. Ninguém nos deu de graça.

E agora um recadinho: valorizem-se mulheres, além de nosso intelecto, nossa sensibilidade, etc., carregamos em nosso corpo uma graça divina, a maior delas: podemos dar à luz um novo ser! Somos donas desse departamento e ninguém muda isso! E, de quebra, ainda gerenciamos o Departamento do Colinho. Explico. Vivemos a vida inteira dando colinho para os homens, aqueles fortões. Ao nascer lhes damos nosso colinho de mãe, nosso seio que amamenta; na mocidade lhes damos nosso colinho de amante, nosso seio que encanta, e na velhice lhes damos nosso colinho de aconchego, o porto seguro para amenizar suas mágoas. 

Já viu, estamos em todas, do nascimento à morte. Merecemos os parabéns.

- Marli Soares Borges - 

sábado, março 08, 2014

UMA IMAGEM 140 CARACTERES


Cada dia que passa os sintomas parecem se agravar. 
Agora ela tem ficado horas a fio, imóvel, 
empoleirada naquele pneu, 
olhando para o vazio.

- Marli Soares Borges -


Participando da blogagem coletiva no blog "Meus Devaneios Escritos".

quinta-feira, março 06, 2014

DE URUBU E URUCUBACA

https://marliborges.blogspot.com/


- Marli Soares Borges -

Jamais pensei que acreditaria em olho gordo. Até o dia em que acreditei.

Naquele tempo - minha pré-adolescência - era moda as pessoas decorarem o interior de suas casas com plantas ornamentais, principalmente samambaias, plantadas em vasos suspensos, -- aliás, ouvi dizer que a moda está voltando. E minha vó tinha várias, e cuidava de todas com amor. Mas havia uma que se destacava, parecia uma renda (chamavam de Renda Portuguesa), e era a mais linda de todas. De um verde brilhante, era uma planta adulta, forte e saudável. 

Até que um dia, se não me engano, num sábado, bateram palmas lá fora e a vó correu para atender. Era a vizinha do lado, pra bater um papo. Assim que ela deu com os olhos na samambaia, desdobrou-se em elogios: coisa mais linda, como você consegue? Deus, ela é toda rendada! Olha, estou maravilhada, esta sim ficaria bonita na minha sala, você me dá uma muda? Claro, disse a vó, assim que 'brotar', farei a muda para você. 

E a vizinha papeava e voltava a elogiar a planta. E a vó, que no início estava feliz com os elogios, passou a sentir-se meio desconfortável, com um não-sei-quê de aflição que não conseguia entender, e por isso foi tratando de 'despedir' a visita. Ufa, graças a Deus ela foi embora, suspirou minha vó aliviada. 

Na sequência, entramos na sala e... bom, aí, tomamos o maior susto. A folhagem antes viçosa, jazia agora murcha, A-CA-BA-DA, nem sombra do que fora há poucos instantes! Não conseguimos recuperá-la de jeito nenhum. Estava mortinha da silva e seu destino foi o lixo. Verdade, gente, pura verdade.

Minha vó queria chorar! Olho gordo, inveja braba, jogou urucubaca em mim e matou minha folhagem! Você viu só? a inveja é uma tristeza, Marli. Fuja das pessoas invejosas. 

Guardei aquele episódio na memória e durante muito tempo acreditei em olho gordo. Hoje em dia, não mais. Aprendi que a inveja cumpre sua sina é no coração dos invejosos. Puxa vida, que tipo de gente é essa, que não consegue suportar o sucesso e a felicidade dos outros? Para quê, carregar no olhar esse roubo de energia vital? Dúvidas, sempre dúvidas. 

Contudo, a idade avançada clareou em mim algumas coisas e penso que embora a inveja mate -- como vovó passou a catequizar-me pela vida afora --, ela (a inveja) não tem tanto poder assim. Temos mais é que enfrentá-la com armas de longo alcance: alegria, senso de humor e firmeza. 

Não vejo a menor necessidade de esconder as coisas novas, o sucesso, e muito menos os dons pessoais que desenvolvemos ao longo da vida. E nada de falsa modéstia também. O ingrediente básico é um só: o bom senso. É assumir -- com firmeza e merecimento -- as riquezas que nos pertencem, mas por outro lado, não pegar carona na ingenuidade e sair por aí alardeando sua vida, seus projetos e esperanças. E por favor, sem ostentações, ok? Assim você acaba atiçando a inveja dos outros!

Xô urubuzada! A urucubaca não me pertence!

Talvez minha vó pudesse ter saído ilesa daquele olho gordo, se tivesse conseguido cortar o padrão vibratório da invejosa, usando e abusando do senso de humor, da alegria e da presença de espírito, virtudes que sempre foram tão marcantes em sua personalidade. Mas ela deixou-se tocar pelo pânico e ficou sem ação.

* Nada contra os urubus (as aves não têm culpa de nada, rsrsrs)


👀 👀 👀


segunda-feira, março 03, 2014

CARNAVAL


- Marli Soares Borges -

Que me perdoem os que não gostam de carnaval, mas eu gosto. 

Na juventude eu não perdia nada, 'sassaricava' todas as noites e tenho doces recordações. Continuo gostando, mas atualmente minha música mudou: ♫ daqui não saio daqui ninguém me tira... ♫, hahahaha, e não me tira mesmo, minha casa, meu conforto, meu aconchego em primeiro lugar. Já botei meu bloco na rua em outros carnavais e agora quero mesmo é, ♫ ficar no meio do povo espiando, minha escola perdendo ou ganhando, lá no carnaval... ♫.

Mas o som da bateria, os brilhos, as fantasias, sei lá, o carnaval me seduz! E nessa vibe continuo cantando meu mantra musical (que nunca me negou fogo): ♫ hoje eu não quero sofrer, hoje eu não quero chorar, deixei a tristeza lá fora, mandei a saudade esperar... ♫. 

Desejo um ótimo carnaval a todos, aos que gostam e aos que não gostam, aos que sambam e aos que não sambam!


SASSASSARICANDO
(Lembrei da Virginia Lane, a Vedete do Brasil, que há pouco tempo nos deixou. Essa música, de 1951, foi um de seus maiores sucessos, senão o maior)

Sassassaricando
Todo mundo leva a vida no arame
Sassassaricando
A viúva o brotinho e a madame
O velho na porta da Colombo
É um assombro
Sassaricando

Quem não tem seu sassarico
Sassarica mesmo só
Porque sem sassaricar
Essa vida é um nó


💃💃💃

sexta-feira, fevereiro 28, 2014

TORTURA CHINESA




- Marli Soares Borges -

Eu estava muda. Ela falava alto e gesticulava... e quase gritava. Não estava gostando de nada, nem de ninguém, a começar pela recepção e administração, incluindo garçons e jardins. Ninguém e nada prestava. O cardápio era uma droga, os guardanapos eram descartáveis, de papel, onde já se viu? E enquanto anunciava que era muito viajada seguia atropelando as palavras. Como é mesmo o seu nome? Marli, eu disse. Ah, sim, o meu é Amália, prazer. Olha, Marli, digo isso porque conheço o mundo inteiro, já me hospedei em diversos resorts e esse aqui é só mais um. Sabes, Marli, sou ativista social na rede. Você sabe o que é isso? E enfatizou: a-ti-vis-ta-so-ci-al. Você não me conhece, eu faço estragos na internet! E esse resort vai sentir o meu poder, vou terminar com ele. Não se trata de dinheiro, que isso não é problema para mim, sempre ganhei e ganho muito bem, e blablablá. Bom, aí então, ela só faltou me dizer que tinha um jatinho, ali na frente, esperando suas ordens para decolar.

E não parava. Mas como, nesse resort não tem um transporte interno até a praia, só para os idosos? E não tem alimentação especial para obesos? (Aí eu, discretamente, dei uma visualizada no shape: ela era grande, em altura e em largura. Avantajadíssima). E você notou que não tem alimentação especial para crianças e que as babás só trabalham até as seis? E o spa que não funciona 24 horas, um horror. E os jardins, pra quê tanta coisa? Salão de jogos, que bobagem. Meu neto, pobrezinho, ele veio comigo, junto com minha filha e meu genro, e ele só tem dois anos e ele não está tendo o que fazer! E a sauna, o que é aquilo? E a hidromassagem? É tudo muito desnecessário, afinal as pessoas estão em férias. E repetiu, aumentando os decibéis: des-nes-ces-sá-ri-o! Olha Marli, juro por Deus, eu não sabia. É a primeira vez que venho para esses lados e estou achando tudo muito caro! Olha, com esses preços, nunca mais! Se eu soubesse que esse resort era tão caro eu não teria vindo! E nem adianta você me dizer que está adorando e que você está se divertindo e que você adora praia, que não vou acreditar. (Detalhe: eu não disse uma palavra, não consegui sequer abrir a boca). 

Muito chato a gente topar com figuras assim, descompassadas. Avemaria!

Incrível como são as coisas, sem mais nem menos, ela me abordou: bom dia, vai a praia hoje? (eu estava batendo fotos). Pronto caí na rede! E o preço? Esse sim, posso afirmar que foi caro demais. Ninguém merece ouvir tantos desatinos numa manhã de férias. No final das contas, eu já estava era querendo matar meu marido, que não aparecia para me salvar. "Não quis atrapalhar a conversa" ele me disse mais tarde, se matando de rir. Engraçadinho! Mas, enfim, relatei o fato.

Tem gente que não se toca mesmo e não importa a idade, a propósito, a tal senhora tem 63, dois menos que eu. Nossa, morro e não vejo tudo. E não é que no dia seguinte, avisto a mesma figura, alugando a orelha, ou melhor, torturando um dos jardineiros? Coitado. 

Em tempo: o fato é real, aconteceu na semana passada, durante nossas férias em Fortaleza, mas o nome da senhora é fictício.
🌞 🌞 🌞

terça-feira, fevereiro 25, 2014

SEGURE A PETECA!

Segure a Peteca! 


- Marli Soares Borges -
Segure a peteca! Essa é uma expressão conhecida que certamente você já ouviu alguém falar. Significa enfrentar as adversidades da vida, coisa que muito adulto simplesmente não tem coragem de fazer. 
Houve um tempo, há muitas e muitas luas, em que os pais preocupavam-se com a educação de seus filhos e sentiam-se no dever de lhes ensinarem o jogo da vida. E bem cedinho as crianças aprendiam a 'segurar a peteca'. E os pais arremessavam forte a peteca e ninguém era poupado, e se alguém tentasse dar uma de espertinho, os pais, com autoridade, o deixavam direto no banco dos reservas e ele ficava ali, emburrado, pagando o preço da 'esperteza'. E todo mundo acabava aprendendo por osmose. E ninguém ficou traumatizado. 
Mas hoje em dia a história é outra, o mundo virou do avesso e a vida dos filhos agora é uma verdadeira moleza, quase um conto de fadas(?!), um passe livre para o que der e vier. Os pirralhos pintam e bordam, as crianças maiores fazem o que querem e os adolescentes, grosseiros, respondões e atrevidos, só falta baterem nos pais. E os pais? Bem você já sabe. Os papais e mamães (sem generalizar, ok?) estão aí, suando a camiseta para manterem em dia os looks dos seus rebentos e presenteá-los dia-sim-outro-também, pela vida afora, senão o bicho vai pegar. Eles não suportam a ideia de negar alguma coisa aos filhos. Fazê-los assumir suas responsabilidades, lidar com as frustrações, nem pensar! Sei lá, acho que hoje em dia os pais têm medo dos filhos. E nesse embalo a safadeza e a imbecilidade foram sacramentadas. E o mundo virou nisso que estamos vendo, um bando de gente fraca e sem noção que só pensa em falcatrua. 
E eu às vezes me pego pensando naqueles tempos em que a gente precisava se esforçar e correr, para não deixar a peteca cair. - Menos, madame, esse jogo já era. As petecas agora jazem no chão, abandonadas, longe da nossa vista, démodé, entendeu? Ninguém mais quer saber de segurar petecas. - Verdade, mas não me conformo, essas crianças estão crescendo muito rápido, e sem educação para a vida, o que vai ser? Ops, não vai ser, já foi, já é! Tudo no oba-oba, afinal quem se importa? Essas crianças estão aqui, foram desembarcadas na adultez com a mala repleta de fraqueza, egoísmo e onipotência. E como adultos, seguem - inteligentes - alegremente, impunemente, enganando, vandalizando e tiranizando pessoas, animais e coisas. 
Enquanto uns conseguem disfarçar o mau caráter ocupando cargos elevados, outros justificam atrocidades em nome da justiça. Uma lógica reversa incompreensível para mim. 
❤ ❤ ❤

segunda-feira, fevereiro 10, 2014

UM SONO QUE NÃO É SONO



- Marli Soares Borges -


Millôr disse que estamos condenados à esperança. Concordo. Uma das mais assustadoras sentenças condenatórias que poderíamos receber no processo da vida, é a esperança. Do verbo esperar, bem entendido. Os que recebem tal sentença, a menos que apelem para a Luz, restarão invariavelmente aprisionados na estagnação pessoal e social. Simplesmente desistirão da viagem pois "na véspera de não partir nunca, ao menos não há que arrumar malas", ah, meu amigo Pessoa, você foi direto na jugular! 

Tenho medo dessa esperança "pirata", essa bruxa perversa que sufoca e aprisiona as pessoas numa prisão insalubre, deixando você fora do ar, dormindo... eternamente e inerte como naquele filme, onde o gigante deitado em berço esplêndido, espera não sei o quê. Dorme um sono pegajoso que não é sono, é um absurdo desânimo. A prisão da esperança (do verbo esperar) nos acorrenta à acomodação, à preguiça e inatividade.  

Mas fora dessa prisão, a vida segue outro rumo. Na liberdade as pessoas enxergam a Luz! Livres da esperança "pirata" todos têm plena capacidade de agir e fazer acontecer! Animam-se a lutar, a viver e a buscar. Porque sabem que, longe da inércia, há possibilidade concreta de conquistarem os sonhos possíveis. Isso é o que eu chamo, gozar os efeitos da verdadeira ESPERANÇA, aquela do verbo ESPERANÇAR. Um santo remédio, como diria minha esperta avó.


💙💙💙

segunda-feira, fevereiro 03, 2014

MÃE DAS ÁGUAS


IEMANJÁ CAMORÔ - Arte Naif by Helena Coelho

NOSSA SENHORA DOS NAVEGANTES DO BRASIL - Arte Naif by Aecio















No dia 2 de fevereiro acontece em Porto Alegre - RS a Festa de Nossa Senhora dos Navegantes, padroeira da cidade. É uma festa católica e pelo que sei é a segunda maior romaria religiosa do País, atrás apenas do Círio de Nazaré, em Belém do Pará. Antes a procissão era fluvial, atualmente, por determinação da Capitania dos Portos, passou a ser terrestre. Maria, mãe de Jesus é considerada como a santa protetora dos mares e a designação de Nossa Senhora dos Navegantes aconteceu porque no passado, os marinheiros rezavam pedindo-lhe proteção nas viagens acreditando que ela os protegeria dos perigos do mar, das tempestades e dos naufrágios. Também é chamada de Nossa Senhora da Boa Esperança, da Boa Viagem e das Candeias. A festa aproxima pessoas de várias religiões num exercício de fé. Isso acontece devido ao sincretismo religioso que existe com Iemanjá, um orixá africano que faz parte do candomblé e de outras religiões afro-brasileiras. Iemanjá aparece no Candomblé representada pela figura arquetípica da sereia, uma mulher de longos cabelos, habitante do reino das águas. A origem mitológica deste orixá provém de uma pequena nação africana, para a qual ela representava o leito original, de onde nasceram todos os seres vivos. Na Umbanda, ela é chamada Mãe Iemanjá ou Senhora da Coroa Estrelada. Também recebe o título de Rainha do Mar. É reconhecida como divindade maternal e protetora, senhora da fartura e da abundância. Na procissão as pessoas colocam oferendas nas embarcações e esperam que a mãe das águas atenda cada um dos seus pedidos. Acreditam que agradando Iemanjá, ela se sentirá mais inclinada a conceder as graças que tanto desejam. 

E você, já fez sua reverência? E os pedidos? E os agradecimentos? Lembrou de pegar seus sonhos inconfessados, colocá-los num barquinho -- mental -- pra navegar nas águas de Iemanjá? - Marli Soares Borges -

segunda-feira, janeiro 13, 2014

ENCENAÇÕES



Não sou mais quem eu era. Noutros tempos eu queria mudar o mundo, achava que podia, afinal eu tinha as ferramentas: juventude, força e garra. E para mim isso era o bastante. Durante anos de minha vida estive ocupada nessa mudança, fazendo isso e aquilo. Lidei com pessoas, aprendi, ensinei, mostrei como se faz, dei chance de fazer. Vi muita gente triste que iluminava o rosto quando aprendia alguma coisa com a qual poderia fazer algum dinheiro. Hasteei a bandeira dos valores perenes: amor, gentileza, responsabilidade, empatia, honra e justiça. E eis que chegaram as novas gerações, e outras mais novas ainda. E alguma coisa se perdeu pelo caminho. O vento jogou longe a chave e fez bater a porta daquele mundo de luz. Do lado de cá, restou um imenso teatro onde vive-se de encenações. Os arautos do rei se mumificaram no poder. Não há saída para que as pessoas comuns façam, pacificamente, a lei valer a seu favor. As virtudes desvaneceram. A cara de paisagem e o sorriso falso parecem ser as únicas ferramentas que restaram para as pessoas ganharem a vida.

Olho no buraco da fechadura e a luz está lá. Porém o tempo passou e não tenho mais força física para abrir a porta, sou apenas uma alma apaixonada e um coração que bate. Mas, se o tempo e a vida enfraqueceram meu corpo, meu caráter continua indômito e não vou me render, vou colocar em cena, ações!

Ainda sonho com a Luz do Novo Mundo: as pessoas incorruptíveis, conscientes de suas responsabilidades planetárias, a justiça funcionando, os governos governando, os direitos e deveres garantidos. Ainda resta-me a palavra e irei usá-la enquanto puder: jogarei palavras ao vento. E, para começar, vou polinizar a empatia que, a meu ver, é a virtude que está fazendo mais falta nesse mundo. - Marli Soares Borges -

sexta-feira, janeiro 10, 2014

A FÉ NÃO SE EXPLICA

Meu primeiro post de 2014 é de fé.
Acreditar e ter fé são coisas diferentes. Quem acredita, apenas acredita, é, portanto uma pessoa crédula, uma pessoa que crê em alguma coisa. Jaz ali inerte, ingênua e crente... na zona de conforto. Acredita que na última hora acontecerá a mágica da salvação. O milagre da crença -- que chamam de fé --, tomará as rédeas e os problemas estarão resolvidos. Mas não! Para mim, fé é outra coisa. E não tem nada a ver com religião, nem com religiosidade. Não há mágica, mas a fé salva. Não aquela fé inerte, confortável, social. A inércia não é um componente da fé, e as próprias escrituras, afastando a credulidade, nos fazem ver que "a fé sem obras é morta". A fé é dinâmica, supõe movimento -- move montanhas. É vontade, ação e confiança inabalável. E não se explica: quem tem, tem. É bem como li não sei onde: "primeiro você dá o passo, depois um deus coloca o chão". Mas o passo, a mola propulsora do acontecimento está com você. É a sua vez. Marli Soares Borges

sábado, dezembro 28, 2013

GRATIDÃO



Em tempos de Natal volto a pensar na gratidão, ou melhor, na falta de. E ouço com nitidez as palavras de Victor Hugo: "os infelizes são ingratos, isso faz parte da infelicidade deles" e lembro também de Balzac, "a gratidão perfuma as grandes almas e azeda as almas pequenas". Verdade. Tem aqueles que ficam felizes quando lhes prestamos algum favor e até sentimos os laços de amizade se estreitarem. Mas tem outros - e não são poucos - que esquecem rapidamente a ajuda que receberam. Johnson dizia que jamais encontraremos gratidão entre gente vulgar, porque a gratidão é a virtude das almas nobres. E é. Talvez por isso seja tão rara. Quer coisa mais vulgar que o egoísmo? Os egoístas medem a gratidão pelo próprio ego e respiram a lógica insana de que são os grandes merecedores das benesses do mundo! Ingratos, é isso que eles são! Um bando de gente que se acostumou a receber ajuda de pai, mãe, irmão, amigo, empregado, filho, sogro, companheiro, etc. São abençoados todos os dias e não dão a menor bola. Se você pertence a essa turma, vou te dizer uma coisa: olhe para os lados e trate de entender que essa gente de fé, que todo o santo dia faz alguma coisa por ti, cada um a seu modo, se sacrifica para te ajudar. Mas se você não se importa, então é porque tua alma pequena perdeu o perfume e azedou! E azeda você vai deixando a vida dos que te cercam, essa pobre gente explorada, que paga muito caro por ter decidido um dia te ajudar. Que tristeza, você perdeu a memória do coração! Se assim não fosse, você já teria se dado conta de que não tem direito de magoar ninguém e você não viraria as costas para os viventes que te ajudam nesse mundo. E você faria o dever de casa: abraçar, agradecer, retribuir a bondade, com pequenos gestos de reconhecimento e afeto. Dar graças a quem nos ajuda, esse é o lance. A gratidão é amiga da delicadeza e da boa convivência. Que tal aproveitar o Natal e agradecer ao céu e a terra, a ajuda recebida? Exercitar a gratidão? 

 Marli Soares Borges


terça-feira, dezembro 24, 2013

segunda-feira, dezembro 16, 2013

TELECO O COELHINHO - MURILO RUBIÃO

Eu adoro realismo mágico (fantástico). Então lembrei do Murilo Rubião*, um contista mineiro que li há tempos atrás. Ele é ótimo. Sua escrita tem um brilho que me encanta, mormente sua visão crítica da sociedade. E o rigor da linguagem? Absolutamente perfeito. Fico triste quando alguém que gosta de ler, diz que não conhece sua obra. Não sabe o que está perdendo. Gosto demais do conto “Teleco, o Coelhinho” que li no livro “Os Dragões e Outros Contos”, putz, faz tanto tempo que nem lembro se foi nesse livro mesmo, rsrsrs.
"- Moço, me dá um cigarro?
A voz era sumida, quase um sussurro. Permaneci na mesma posição em que me encontrava, frente ao mar, absorvido com ridículas lembranças.
O importuno pedinte insistia:
- Moço, oh! moço! Moço, me dá um cigarro?
Ainda com os olhos fixos na praia, resmunguei:
- Vá embora, moleque, senão chamo a polícia.
- Está bem, moço.Não se zangue. E, por favor, saia da minha frente, que eu também gosto de ver o mar.
Exasperou-me a insolência de quem assim me tratava e virei-me, disposto a escorraçá-lo com um pontapé. Fui desarmado, entretanto. Diante de mim estava um coelhinho cinzento, a me interpelar delicadamente:
- Você não dá é porque não tem, não é, moço?"
Sim, o personagem principal é um coelho. Mas não é bem um coelho. Na verdade Teleco é uma metamorfose ambulante. Ele vive se transformando em outros animais. A gente se refere a ele como coelhinho porque é assim que ele se apresenta pela primeira vez, mas poderia ser uma pulga, um leão, um cavalo, uma ave extinta ou até... Resumindo, ele mesmo confessa que a versatilidade é o seu fraco. Mas tudo bem, por enquanto o coelhinho só quer agradar os outros. Mas a coisa esquenta quando ele se transforma em canguru, arranja uma namorada e afirma que é homem e que se chama Barbosa. Santo Cristo, agora complicou...

É impressionante como Rubião consegue mostrar tudo o que lhe passa pela cabeça, somente utilizando metáforas. E metáforas perfeitas, diga-se de passagem. Veja só nesse conto, (você já viu, óbvio) a animalização da humanidade, o homem deixando de ser um “humano” para ser um “desumano” é uma coisa muito louca! Só um gênio desse quilate conseguiria fazer essa transposição, essa mágica literária. Acho, (pura achologia mesmo), que o tom lúdico desse conto serve para mascarar nossas questões existenciais e que Rubião quis sintetizar, e sintetizou, a meu ver, o início da criação humana à luz da Bíblia, desde o nascimento inocente até a corrupção. Para mim, todas as metamorfoses do coelhinho revelam uma inútil tentativa de adaptação a um mundo onde não há mais valores referenciais.

Mas tem uma coisa que sempre achei paradoxal: é que embora os textos bíblicos marquem presença em sua obra, há também um ceticismo a respeito da salvação. Lembro que ao ler seus livros, no final, eu sempre ficava com essa sensação. Sei lá. Tempos depois, a notícia: ele virou ateu. Biiiiiingo!

* Murilo Eugênio Rubião foi jornalista e escritor brasileiro. Nasceu em Carmo de Minas - Belo Horizonte.
Beijos a todos.

P.S. - Publicado pela primeira vez em junho de 2011.

quinta-feira, dezembro 12, 2013

COMO VIRÁ O MEU NATAL?

Natal tem que ter árvore e presépio, e isso ninguém muda. No dia 10 de dezembro monto minha árvore de Natal. Por que 10 de dezembro? Não sei, é tradição, a minha tradição. Era o dia em que, na minha casa de menina, montávamos a nossa árvore para esperar o aniversário de Jesus e o Papai Noel.

Na minha infância as árvores eram vivas e os galhos eram vendidos na feira. Como éramos pobres, minha vó sempre dava um jeito de ter algum pinheirinho plantado num vaso para a gente enfeitar. Costumávamos guardar os enfeites nas caixas de Natal. Continuo guardando assim, e ainda sou ligada em abrir essas caixas. Guardados há quase um ano, sempre acabo esquecendo a cara dos enfeites. Nossa, um ano é muito tempo, e não é que esqueci como é lindo o novo presépio que ganhei ano passado? 

Eu acreditava em Papai Noel, lembro muito bem. Durante vários anos alimentei um sonho e escrevi para ele pedindo que me trouxesse uma bicicleta. Quando via a árvore montada, meus olhos brilhavam e minha esperança se acendia. É agora, eu pensava, finalmente vou ganhar minha bicicleta. O tempo passou, eu cresci, e andei passando uns trabalhos na vida. E alguns natais foram bem complicados. Lembro de um, em que morávamos numa fazenda bem longe da cidade e decorei a árvore com enfeites de papel, feitos a quatro mãos: meu marido e eu. Meus filhos eram bem pequenos nessa época, e a gente andava sem dinheiro. No ano seguinte uma folhagem num vaso, virou nossa árvore de Natal. Mesmo assim, jamais pensamos em desistir da árvore, era vital aquele aconchego natalino. A gente ali, se abraçando e brilhando junto com as luzinhas. E minhas crianças se criaram assim. 

Hoje em dia quando chega dezembro, fico observando o espírito natalino ir tomando conta do coração dos meus filhos, dos meus netos e das pessoas que convivem com a gente. Em silêncio, aguardo pacientemente o dia especial. Meu marido também fica quieto, esperamos que no dia 10 de dezembro nossa árvore esteja novamente conosco, carregada de significados. Acho que nesse ano de 2013, meu Natal virá exatamente assim, como tem acontecido há mais de meio século.

Tem muita gente que diz que isso é pura bobagem, que não condiz com os tempos atuais, que perdeu a graça, que isso é coisa de gente moça. E daí? Não me importo. Essas bobagens me fazem vibrar, me dão entusiasmo e força. Meu lado criança acorda, de olhos bem arregalados. E minha bicicleta? Pois é. Papai Noel nunca trouxe, mas continua me trazendo a emoção, a mesma que sinto ao ver minha árvore enfeitada. A mesma dos meus tempos de menina. Fico tão feliz que parece que um novo sonho vai se realizar. De uns tempos para cá, minha árvore de Natal tem sido meu referencial de alegria para o ano novo que vai chegar.

Marli Soares Borges, 2013

* COMO VIRÁ O MEU NATAL? - Minha participação da IV Interação de Natal promovida pela amiga Rosélia 
   

quarta-feira, dezembro 04, 2013

QUERER NÃO É PODER




"Dêem-nos o supérfluo da vida, que dispensaremos o necessário", disse certa vez Oliver W. Holmes no início do séc.XIX. Se isso não foi um vaticínio, então eu não sei mais nada, pois nunca um dizer antigo esteve tão atual e retratou tão bem o que ocorre hoje na sociedade de consumo. Só faltou retratar a epidemia de infelicidade que o consumismo está causando nas pessoas. É que navegar nos mares do supérfluo, por mais doce que possa parecer, é uma das mais amargas perdas de liberdade que existem. O consumismo escraviza, gera infelicidade e acaba com a sua paz, porque carrega consigo a maldita sina de atrair dívidas. E não tem nada pior do que se endividar. Você perde o sono e perde a dignidade. E, se não retomar as rédeas de sua vida, você vai ao fundo do poço. E empobrecido só lhe restará a insolvência, ou seja, você literalmente já era. Porque fazer isso com você? Porque roubar a si próprio comprando o que não precisa? Para ser feliz? É muito triste se endividar para comprar a felicidade, aliás, felicidade comprada não existe, é uma piada de mau gosto, apanágio da sociedade de consumo. Acorde, pense em você e sacuda essa poeira, olhe ao redor, pense nos seus afetos, eles sofrem demais com essa desdita. Todos sofrem. (Mas se você não consegue sair dessa sozinho, se a vontade de consumir é mais forte que você, isso pode ser patológico, peça ajuda profissional e não deixe sua vida escorrer pelo ralo).

Não quero dizer com isso que você tenha que deixar, eventualmente, de comprar supérfluos, por favor, não me entenda mal. Mas há que ter bom senso e não exagerar, pois é complicada nossa situação. Vivemos desamparados num país onde apenas uma minoria muito rica tem poder de compra, e a grande maioria -- pobre -- não têm dinheiro sequer para os bens essenciais. Em contrapartida somos bombardeados diariamente por uma das publicidades mais respeitadas do mundo, notável especialista em criar necessidades desnecessárias. Ela anuncia que seremos felizes, atraentes e saudáveis se escolhermos isso ou aquilo, contudo, ninguém conseguirá alcançar essas metas, porque elas não passam de paradoxos. Observe: de um lado nos oferecem a felicidade, a saúde, a beleza e o bem estar e do outro somos incentivados a comprar produtos, muitos deles, comprovadamente prejudiciais. O que fala mais alto é sempre o consumo, comprar, cada vez mais. E é tão forte a pressão pelo prazer de consumir, que as pessoas ficam atordoadas e, mesmo sem dinheiro, comprometem seus créditos nos cartões, e logo ali, desabam, infelizes, com dívidas exponenciais e projetos de vida inalcançáveis.

Quando falamos em consumo, nem nos damos conta de que o que está sendo consumido de verdade, é a nossa força vital, nossa saúde física e mental que todo dia é vendida e comprada, usada e abusada, para lubrificar a máquina ensandecida do lucro empresarial. Observando com uma lupa, veremos que as milagrosas promessas publicitárias, todas elas cabem no mesmo molde de apenas dois compartimentos: um oferece o meio de fuga, e o outro oferece a vida real, de onde todos querem fugir. A cultura do consumo sufoca as pessoas com objetos e fantasias e oferece um mundo, sem qualquer chance de existência objetiva, que parece existir apenas para impulsionar os desejos pessoais. 

É impossível negar o poder da sociedade de consumo. Mas vale notar que esse poder está atrelado a uma publicidade que "deu certo". Logo, neutralizando essa vibe, enfraqueceremos esse poder, e acredito na possibilidade real de virar o jogo e recuperar nossa liberdade de escolha. Penso muito nas palavras de Rousseau, "o forte não é nunca bastante forte, para estar sempre no poder, se não faz de sua força um direito e, da obediência, um dever", e, eis que surge uma luz. Tenho visto recentemente, os meios de comunicação ventilarem anúncios sobre a importância e a necessidade do consumo sustentável e seus benefícios. Então, chegou a hora. Hora de banir o consumismo, de lutar contra esse massacre publicitário que nos escraviza. A luta? Terá de ser no terreno das idéias, dos valores e das justificações éticas, fazendo valer o direito constitucional que todos temos, como cidadãos brasileiros, de levar uma vida digna, independente e livre. E, no final das contas, feliz.

Marli Soares Borges, 2013

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*  O texto "Querer não é Poder" foi publicado pela primeira vez no "Blog da Marli"

segunda-feira, dezembro 02, 2013

POIS É, ACONTECE.


Na vida a gente às vezes confunde sonho com ilusão e acaba perseguindo um equívoco. De repente você sai de órbita, leva uma queda e dá com os burros n'água. E vem o pavor. Lembra "O Grito" de Edvard Munch? Pois é, acontece. Você se descuidou, fez besteira e caiu. E inerte no chão, sua alma acabou adoecendo. Shsss! Muita calma nessa hora. Infecção mental é coisa séria, mas a boa notícia é que tem cura, pois a alma é igualzinha a fênix, ela se recompõe, revigora e se faz luz. Mas isso é um processo e você tem que ajudar. Pode até chorar pelos cantos, mas nada de auto-comiseração, que isso sim é um tiro no pé. Toque sua vida para frente. Sugiro um tratamento de choque: que tal mudar o seu ponto de vista? Um novo ponto de vista é remédio poderoso e, em se tratando das doenças da alma, o resultado aparece na hora. E digo isso de cadeira, conheço o efeito desse remédio, já levantei muitas vezes. Então a dica é a seguinte: primeiro encare, assuma que você se iludiu e foi ao chão. Olhe ao redor e pense comigo: o chão é milagroso, é onde a semente germina e a flor desabrocha. É onde tudo acontece. E a queda, apesar de sofrida, certamente fez você abrir os olhos e enxergar melhor. Bom, você não pretende ficar eternamente nesse banzo, não é? Então, é hora de plantar novos sonhos! Arregace as mangas e trabalhe. Acredite na transcendência, tem ajuda concreta por aí, mas assegure-se de ter plantado somente sonhos, dessa vez. Ligue as antenas e atente para suas reais possibilidades. Não se distraia, não navegue nas ilusões, sua alma precisa estar saudável para as boas energias fluírem e ajudarem você a realizar seus sonhos, "... a fé não costuma faiá..."

Marli Soares Borges, 2013

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terça-feira, novembro 26, 2013

DE FASCÍNIO EM FASCÍNIO

Adoro a emoção que vem quando mudo meu centro de interesse. Revivo, quero fazer isso e aquilo, quero mais e mais, quero mexer com a vida, mexer a panela dos doces e lambuzar meu coração. Paro imediatamente de bater os pinos e a criança que habita em mim se move de um fascínio para outro com olhos de primeira vez. Muitas vezes me parece que esse sentimento é imaturo, que eu deveria manter um padrão de interesse por mais tempo, um padrão compatível com minha maturidade, -- aiai sou tão madura -- mas na verdade, eu sigo querendo o que sempre quis: que os fascínios continuem comigo, tomando conta da minha cabeça, dos meus sentidos, de todo o meu ser! Quero aguçar meu sexto sentido, afinar minhas percepções e ampliar minha leitura de mundo. Essa dinâmica me move e fascina. No passado eu nutria uma certa inveja dos pintores e fotógrafos, porque me parecia que o trabalho deles era puro fascínio, na medida em que nada se repetia, que o fascínio sempre se renovava porque amparado na incidência da luz, que modifica completamente o cenário. Mas eu estava errada, comprovei mais tarde. O fascínio não tem nada a ver com a superfície, ele é uma mágica interior que pode acontecer milhões de vezes na vida de cada um de nós. É coisa do espírito, e vibra quando é movido pelo interesse verdadeiro, esse impulso interior que coloca os sentidos em sintonia com a energia vital e aciona o processo criativo. Ou seja, a gente só se interessa pelo que realmente nos fascina, por aquilo que nos fala ao coração. Aí a gente volta a engatinhar e abraçar as novas experiências da vida.  Marli Soares Borges

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segunda-feira, novembro 18, 2013

E AÍ, VAI ENCARAR?


Ninguém é perfeito. Calma, sei que você não se mistura, que você gosta de estar só e blablablá. Que você gosta demais de você. Já lhe tirei fora dessa. Mas bem que você poderia aproveitar suas qualidades e melhorar o mundo, melhorar a vida desses humanos tão ridículos, afinal, você tem tantos talentos e eles não têm nenhum. Você poderia começar, simplesmente deixando o outro crescer em seu próprio ritmo. Que tal descer do salto e parar de implicar com o outro, parar de criticar tudo e todos? Que tal abandonar a chatice e ser uma pessoa amável e gentil, ver a vida com outros olhos, deixar de lado a presunção? Que tal parar de ser cri-cri em tempo integral, parar de se achar? Aposto que esses humanos insignificantes não são assim tão sem graça como você pensa. Eles vivem por aí, ralando, pagando seus pecados, mas conseguem sorrir dos dissabores e tocar a vida do melhor jeito que dá. Sei disso, faço parte dessa troupe de imperfeições. Marli Soares Borges


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quinta-feira, novembro 07, 2013

GARRANCHOS NAS RECEITAS MÉDICAS

“Um médico retirou o útero de uma paciente por engano em Santa Maria de Jetibá, colocando a culpa em problemas na letra que determinava o procedimento a ser realizado naquela paciente que lhe fora encaminhada."

Cada dia, mais me convenço de que há um desajuste entre o que aprendemos na escola e o que precisamos aprender à custa de sacrifícios e erros na vida. Meu Deus, porque a escola não me ensinou a ler garranchos de médicos? Não tenho problema para ler e assinar contratos, cheques e outros tantos documentos importantes que requeiram entendimento, mas quando tenho que comprar remédios ou fazer exames de laboratório, aí sim é um calvário, mas quer saber, isso era o que eu pensava antes do saber.  Sem essa de botar a culpa na escola. Bobagem. Agora exijo respeito por parte dos profissionais da saúde, mormente dos médicos. Recuso-me a aceitar receitas que ninguém entende. Quando algum médico escreve garrancho na receita, reclamo na mesma hora. Na verdade, precisei ir ao Procon apenas uma vez. Mas acontece que pertenço ao contingente das pessoas esclarecidas, que conhecem bem os limites de lá e de cá. A propósito, você sabia que o médico, como qualquer outro prestador de serviços, também está sujeito às leis de defesa do consumidor? Tem alguns que de tanto se incomodarem, resolveram escrever suas receitas direto no computador, o que acho ótimo. Mas embora eu tire de letra essa questão, sei que para muitas pessoas as receitas médicas ainda continuam sendo um problema, e além da doença elas ainda têm que enfrentar dificuldades na hora de comprar os remédios. E as mais pobres acabam jogando fora seu único dinheirinho, comprando remédio errado, porque o atendente da farmácia... pensou que fosse! É preciso esclarecer esse povo, sei lá, parece que o pessoal tem medo de tocar nesse assunto, parece até um tabu, os médicos pintam e bordam com as receitas e fica tudo por isso mesmo, pelo menos é o que tenho visto por aqui. As pessoas mais necessitadas nem sabem que têm direito à uma receita legível.

Puxa vida, porque alguns médicos não cumprem a ética e insistem nos garranchos? E porque os consumidores aceitam de bom grado essa falta de respeito? Não, gente, chega de baixar a cabeça, temos o direito de exigir letra legível nas receitas médicas. É direito, não é favor. O Código do Consumidor nos protege, sem falar nas leis específicas dirigidas ao métier. Só para você ter uma ideia, a obrigatoriedade de letra legível em receituários médicos já vem de muito tempo aqui no Brasil. Em 1932, o Decreto 20.931, que regulamentou a profissão de médico, trouxe em seu artigo 15 a obrigatoriedade de escrever as receitas por extenso e bem legível. Mais tarde, em 1973, a Lei 5.991, dispondo sobre o controle sanitário de insumos farmacêuticos, em seu artigo 35 reforçou ainda mais: "somente será aviada a receita que estiver escrita por extenso e de modo legível". Em 1988 o Conselho Federal de Medicina fez publicar a Resolução n° 1246/88 que, em seu artigo 39 considera antiética a má-caligrafia, além de ser um exemplo de má-prática médica. Atualmente o novo Código de Ética Médica (CEM), em vigor desde 2010, estabelece que o médico deve escrever a receita de forma legível. Aí então, repito a pergunta: porque alguns médicos descumprem a lei e a ética impunemente? Respondo: porque os consumidores permitem. Então... Procon neles! E Ministério Público também. E justiça também. E imprensa também. É hora de botar a boca no mundo.

E como fica a escola no meio disso tudo? Já falei, a escola está certa. Ela nos ensina a escrever e ler letras legíveis. Garrancho na receita é outra coisa, talvez Champolion ajude, mas eu prefiro o Procon.

Humpf! Tem umas buzinadas aqui no meu ouvido: e os atrasos nas consultas? Calma, isso é assunto para outro post. 

Marli Soares Borges, 2013

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quarta-feira, outubro 30, 2013

FAMíLIA EM CONEXÃO COM A PAZ

A paz não é um fim, não é um objetivo nem algo que se busque alcançar no presente ou no futuro. A paz é situação real, diária, modo de ser e de estar que se propaga quando interagimos com o outro. É salvo-conduto para o mundo, e inaugura-se na família, um microcosmo por excelência. Acredito muito numa coisa que chamo "Centro de Paz". Não é propriamente um lugar, mas um modo pacífico de interagir e compatilhar a vida com as pessoas, ou seja escolher a paz, abandonando os encontrões e as grosserias. O coração pacífico, o comportamento pacífico apesar dos senões, e sem se anular como pessoa. Penso que a familia pode ser o cenário do primeiro "Centro de Paz" na vida de cada um de nós. O ambiente familiar nos oferece uma rara oportunidade para entender e praticar a paz verdadeira. Nossos familiares nos põe à prova, instalam o céu e o inferno em nossas vidas e testam nossos ímpetos como ninguém. Muitas vezes precisamos ter nervos de aço para neutralizar certos conflitos familiares e, ao mesmo tempo lidar com os ditames de nossa guerra interior. Tudo isso, ali, em meio a laços afetivos de dimensão inestimável. E nesse fogo cruzado precisamos fincar o pé e sustentar a paz, afinal, família é família. Daí minha ideia desse primeiro "Centro de Paz". É um teste visceral. E você tem que estar em paz com a tua guerra, seja ela qual for, porque, se você não sabe, é esse estado mental -- pacífico ou beligerante -- que você vai refletir, lá fora, inconscientemente, em todas as suas relações pessoais. Entenda, você pode ser a paz no mundo, você é causa e consequência. Gosto de ir além, e pensar no mundo como um grande "Centro de Paz". Marli Soares Borges

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sábado, outubro 26, 2013

GENERALIZAR NÃO É PRECISO

Detesto generalizações, mas parece que elas me perseguem. Veja só o que encontrei num artigo escrito por uma especialista em "psicologia da vida a dois" -- nossa, estou por fora, eu nem sabia que existia esse tipo de especialização. -- Ela afirma o seguinte:"O silêncio é inimigo do amor. O silêncio mata o amor. Quem ama sempre tem o que falar. Sempre. Sem assunto, sem amor."

Bom, aí pisou no meu pé.

Maldita mania de generalizar. Quem disse que estar em silêncio incomoda? Quem disse que palavras são requisitos do amor? Será que todo o silêncio é ruim? Será mesmo, que o silêncio mata o amor? Será que ninguém nesse mundo aprecia o silêncio? Alto lá, eu aprecio. E meu marido também. E como nós, milhões de pessoas, aposto. Não vejo nada de mais no fato da gente ficar algum tempo, ao lado de alguém, sem se falar. E seguir vivendo assim, às vezes em silêncio, simplesmente. E estar feliz. Ninguém tem assunto o tempo inteiro. E se você já vive uma história de vida ao lado de outra pessoa, vai entender muito bem do que estou falando.

A meu ver, entre duas pessoas que se amam e compartilham a vida, existe pelo menos, dois tipos de silêncio: um baseado no sossego, na serenidade e na confiança. É silêncio que não incomoda, ao contrário, gratifica e liberta. É bálsamo suave, que conforta e alinha os caminhos; sinal de que está tudo bem. Retrata o amor absoluto, a doce intimidade, a parceria concreta. O grande poeta Fernando Pessoa, com seu brilho tão peculiar, escreveu certa vez: "Há tanta suavidade em nada dizer, e tudo se entender" . Algo me diz que ele se referia a este tipo de silêncio. E agora escute só o que encontrei na Desiderata: "Siga tranqüilamente entre a inquietude e a pressa, lembrando-se de que há sempre paz no silêncio." Recordo ainda as palavras de Machado de Assis, -- meu ídolo de priscas eras. -- Disse ele: "Eu gosto de olhos que sorriem, de gestos que se desculpam, de toques que sabem conversar e de silêncios que se declaram.” Eu idem, ibidem.

Mas reconheço que há também um silêncio que incomoda, que mina qualquer relação, que impede o entendimento, que retrata amargura e desamor. Esse silêncio vem aos gritos e se afoga nas palavras não ditas. É mais ou menos como estar numa câmara escura. Você simplesmente não vê saída e seu coração sufoca. As mágoas são tantas que se você abrir a boca, não haverá munição que chegue. Então você decide que é melhor silenciar. Talvez a autora do texto -- bastante jovem -- só conheça este tipo de silêncio. E, afoita, foi logo generalizando. Marcou bobeira a moça.

Generalização não bate comigo. No mais das vezes, as generalizações resultam numa mentira com aparência de verdade. Um perigo.

Marli Soares Borges

quinta-feira, outubro 24, 2013

ANIMAIS! Um texto de CORA RONAI


Acompanhei, através da transmissão feita pelos próprios ativistas, o resgate dos animais do Instituto Royal. A qualidade das imagens, feitas num celular, estava entre o péssimo e o sofrível, mas a sua carga de emoção foi maior do que a de muita superprodução. A cada coelho ou cachorrinho que saía do inferno, o público que acompanhava a ação na internet comemorava, mandando congratulações e palavras de estímulo e agradecimento aos heróis da madrugada.

Também acompanhei, no dia seguinte, os depoimentos dos diretores do instituto, que negam a existência de maus tratos nas suas dependências. Uma nota divulgada pela instituição, aliás, chegou a afirmar que os bichos teriam, lá, “as melhores condições de vida, com saúde, conforto, segurança e recreação”.

Que me desculpem os senhores diretores, mas é impossível levar a sério quem acredita que se podem usar tais termos em relação a animais que passam a vida em gaiolas, sendo submetidos a toda sorte de experiências dolorosas. Melhores condições de vida? Saúde? Conforto? Se a nota foi redigida de boa fé, mostra um completo distanciamento da realidade; se não foi, revela uma perigosa falta de compromisso com a verdade.

Aliás, há várias perguntas sem resposta em relação ao instituto. A primeira, e mais importante, é saber quem são os seus clientes. Como o Royal recebe verbas públicas, tem a obrigação de revelar para quem trabalha. Com isso se esclareceria boa parte das dúvidas que cercam a natureza dos testes lá realizados. Testar cosméticos e material de limpeza em animais, por exemplo, é prática condenada num número crescente de países. Na União Européia a legislação é tão severa que, no começo deste ano, foi proibida até a comercialização de produtos testados em animais, ainda que importados.

o O o

Sou contra a realização de testes em animais -- mas não tenho formação científica, e minha opinião sobre o assunto é, consequentemente, só isso, uma opinião. Por esse motivo, passo a palavra para o especialista Sérgio Greif, biólogo formado pela Unicamp, com mestrado na mesma universidade, co-autor do livro "A verdadeira face da experimentação animal: a sua saúde em perigo" e autor de "Alternativas ao uso de animais vivos na educação: pela ciência responsável":

"Se um pesquisador propusesse testar um medicamento para idosos utilizando como modelo moças de vinte anos; ou testar os benefícios de determinada droga para minimizar os efeitos da menopausa utilizando como modelo homens, certamente haveria um questionamento quanto à cientificidade de sua metodologia.

Isso porque assume-se que moças não sejam modelos representativos da população de idosos e que rapazes não sejam o melhor modelo para o estudo de problemas pertinentes às mulheres. Se isso é lógico, e estamos tratando de uma mesma espécie, por que motivo aceitamos como científico que se testem drogas para idosos ou para mulheres em animais que sequer pertencem à mesma espécie?

Por que aceitar que a cura para a AIDS esteja no teste de medicamentos em animais que sequer desenvolvem essa doença? E mesmo que o fizessem, como dizer que a doença se comporta nesses animais da mesma forma que em humanos? Mesmo livros de bioterismo reconhecem que o modelo animal não é adequado.

Dados experimentais obtidos de uma espécie não podem ser extrapolados para outras espécies. Se queremos saber de que forma determinada espécie reage a determinado estímulo, a única forma de fazê-lo é observando populações dessa espécie naturalmente recebendo esse estímulo ou induzi-lo em certa população.

Induzir o estímulo esbarra no problema da ética e da cientificidade. Primeira pergunta: será que é certo, será que é meu direito pegar indivíduos e induzir neles estímulos que naturalmente não estavam incidindo sobre eles? Segunda pergunta: será que é científico, se o organismo receber um estímulo induzido, de maneira diferente à forma como ele naturalmente se daria, será ele modelo representativo da condição real?"

A íntegra deste artigo pode ser lida na internet, em bit.ly/17HLVZn. Já a dra. Preci Grohman, médica, é professora aposentada da UFRJ, e fez cursos de pós-graduação nas universidades de Toronto e Londres. Ela escreveu o seguinte:

"Quando estudante, fiz experimentos com animais, recebendo bolsa do CNPq. Na época acreditava nessa prática. Já em Toronto e Londres utilizei cultura de células humanas .

Os cientistas, com seus experimentos, conseguem títulos de mestre ou doutor, o que resulta em promoções e aumento de salários. Isso os torna mais competitivos no mercado de trabalho. Seus supervisores também são agraciados com títulos e prestigio.

A criação de plantéis de animais para pesquisa também é muito lucrativa.
Certas drogas, inócuas em animais, já causaram grandes desgraças quando usadas em humanos. A mais conhecida foi a Talidomida. Macacos não desenvolvem câncer de pulmão mesmo sendo obrigados a tragar cigarros continuamente. Se a diversidade genética entre indivíduos da mesma espécie já é significativamente grande para levar a respostas diversas após um mesmo estimulo, o que se pode esperar entre diferentes espécies?

Pesquisas já são feitas com voluntários, podem ser feitas em criminosos que desejem reduzir suas penas ou ainda em culturas de células humanas. Se forem necessárias outras técnicas, os seres humanos devem ser competentes o suficiente para desenvolve-las. Um exemplo de desperdício na ciência é o descarte diário de milhares de cordões umbilicais, ricas fontes de células.

A manutenção até os dias de hoje de experimentos em animais visa puramente interesses financeiros, e já deveria ter sido abolida há decadas".

(O Globo, Segundo Caderno, 24.10.2013)

terça-feira, outubro 22, 2013

UMBIGO DO MUNDO


Tem gente que não consegue ficar um minuto sem pensar no seu próprio umbigo. Simplesmente empacou nessa temática: elas são o centro do universo, o umbigo do mundo, e azar dos outros. Por mim, elas podem empacar por aí à vontade. Não compartilho desse egoísmo e vaidade. Quando percebo que uma pessoa está sempre se projetando diante de qualquer coisa que aconteça, simplesmente a ignoro, com essa carta não tem jogo. Imagino que se tentasse bater de frente com pessoas assim, de certo que eu não teria a menor chance. O umbigo delas é imenso, cansativo, e fica à toa num mundo fantasioso que serve apenas como cenário para o personagem inigualável do “eu” delas. E, do lado de cá, me deparo com o meu próprio "self" que não tem mais paciência para incentivar, nesse tipo de gente, o interesse transcendental pelo todo, pelo plural! Deixa assim, nem quero saber.

Nada contra as pessoas pensarem em si mesmas, afinal nosso maior interesse enquanto seres humanos é mesmo o nosso “self”. E acho muito natural que pensemos em nós, inclusive com uma certa dose de egoísmo. Mas tudo dentro dos conformes. Egoísmo demais é mania, é morbidez. E disso, quero distância. Enfim. Todo esse papo pra contar que... -- é, acontece, às vezes-- dia desses abandonei uma conversinha de fim de tarde. Retirei-me. Inventei uma mentira deslavada e caí fora. Preferi olhar a vida, observar as pessoas, os animais, as plantas, as coisas... E fui respirar. E foi a melhor coisa que fiz. Voltei para casa e caí satisfeita nos braços do Morfeu! Rsrsrs.

Marli Soares Borges, 2013.

domingo, outubro 20, 2013

UMA IMAGEM, 140 CARACTERES - 23 ª EDIÇÃO





Desisto! Caderno, lápis e letrinhas caprichadas não faz a minha cabeça. Prefiro a tecnologia digital. Oh Deus, por que mamãe não me entende?


* Blogagem Coletiva - Minha participação - Blog Escritos Lisérgicos
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PNL-10 Auxiliares Linguísticos da PNL

"A morte e a vida estão no poder da língua; e aquele que a ama comerá do seu fruto." 
Provérbios 18:21
  
"Guarda tua língua do mal, e teus lábios das palavras enganosas."
Salmos 34:13


A linguagem dirige nossos pensamentos para direções específicas e, de alguma maneira, ela nos ajuda a criar a nossa realidade, potencializando ou limitando nossas possibilidades. A habilidade de usar a linguagem com precisão é essencial para nos comunicarmos melhor. A seguir, andei pesquisando, e achei uma lista de palavras e expressões que devemos observar quando falamos, porque podem dificultar nossa comunicação. Modifiquei a redação para facilitar a leitura e trouxe aqui para você. Na verdade, são algumas armadilhas da nossa linguagem.

Enjoy.

  • Cuidado com a palavra NÃO. 
  • A frase que contém "não", para ser compreendida, traz à mente o que está junto com ela. O "não" existe apenas na linguagem e não na experiência. Por exemplo, pense em "não"... (não vem nada à mente). Agora vou pedir a você que "não pense na cor vermelha". Pois é, pedi para você não pensar no vermelho e você pensou. Por isso, procure falar sempre no positivo: o que você quer, jamais o que você não quer. 

  • Cuidado com a palavra MAS
  • A frase que contém "mas", nega tudo que vem antes. Exemplo: "Fulano é um rapaz inteligente, esforçado, mas..." Nesse caso, substitua "mas" por "e". 

  • Cuidado com a palavra TENTAR 
  • A frase que contém "tentar" pressupõe sempre uma possibilidade de falhar. Por exemplo: "vou tentar acordar amanhã às 8h". Nesse caso, tenho grande chance de não ir, pois apenas vou "tentar". Se for possível utilize "fazer". 

  • Cuidado com as palavras DEVO, TENHO QUE ou PRECISO
  • A frase que contém alguma dessas palavras, pressupõe sempre que sua vida é controlada por algo externo. Em vez delas, use "quero, decido, vou". 

  • Cuidado com as palavras NÃO POSSO e NÃO CONSIGO
  • A frase que contém essas palavras, sempre dá ideia de incapacidade pessoal. Use "não quero", "não podia" ou "não conseguia", que pressupõe que você terá sucesso no que for fazer. 

  • Use a palavra AINDA
  • Ao falar nos seus problemas, ou fazer descrições negativas de si mesmo, utilize o verbo no passado ou diga a palavra "ainda". Isto libera o presente. Exemplo: "eu tinha dificuldade de fazer isso", "não consigo ainda". A palavra "ainda" pressupõe que vai conseguir. 

  • Substitua SE por QUANDO
  • Em vez de falar "se eu conseguir ganhar dinheiro, vou viajar", diga: "quando eu conseguir ganhar dinheiro, vou viajar". A palavra "quando" pressupõe que você está decidido. 

  • Substitua ESPERO por SEI
  • Em vez de falar, "eu espero aprender isso", diga: "eu sei que eu vou aprender isso". A palavra "espero" transmite a ideia de dúvida e enfraquece a linguagem. 

  • Substitua o CONDICIONAL pelo PRESENTE
  • Em vez de dizer "eu gostaria de agradecer a presença de vocês", diga: "eu agradeço a presença de vocês". O verbo no presente fica mais concreto e mais forte. 

  • Fale das mudanças desejadas
  • Use o verbo no PRESENTE ou no GERÚNDIO. Exemplo, em vez de dizer "vou conseguir", diga "estou conseguindo". 

Mas, por favor, EVITE o gerundismo, que é terrível.
Bom, por enquanto é isso.


sexta-feira, outubro 18, 2013

O PODER DAS PALAVRAS


Esse texto que você vai ler agora é um dos meus preferidos. Eu acho simplesmente fantástico, bonito, elegante, elaborado. Puro talento. Sua matéria-prima é a palavra, e é impressionante a forma com que o autor(a) expressa seu sentimento. Sigo cada vez mais, fascinada pelas palavras.

Não, não foi bobeira, de onde eu copiei não constava a autoria, mas se você souber, please, me diga. Independente disso, enjoy!!

Já perdi a voz,
já perdi avós,
já me perdi em nós e
já perdi momentos a sós.

Já me perdi em pós.
Já recalquei algo atroz.
Já naveguei do interior dos sonhos até à foz e
já gritei meio louco meio feroz.

Já me senti a correr parado e
já fiquei estagnado no instante mais veloz.
Em todos estes momentos fui pelas palavras.
É por lá que caminho.

Por uma ponte de consoantes
suspensa por inflexões de ritmo,
com intertextualidades pendentes.

Percorro-a pelas aliterações e
através das pontuações,
sem reticências... para pontuar o prazer.

Porque sou pelas palavras.

Uns são pelos cães.
Eu sou pelas palavras.
Outros são pelas ações.

Bem sei que as ações falam.
Mas as palavras, essas, atuam.
Em qualquer filme ortográfico.

Bom final de semana
Marli Soares Borges, 2013

Em tempo: esse post foi publicado originalmente em 30 de outubro de 2010 com o título: AS PALAVRAS ATUAM

segunda-feira, outubro 14, 2013

QUERO-QUERO QUANDO GRITA


Meu netinho Pedro (6) e seu avô Nilton, my husband, são carne e unha. Às vezes eles se desentendem, mas é coisa pouca e tudo fica numa boa. Mas ontem... calma, já vou contar. Você conhece o quero-quero? É uma ave pequena, de aparência modesta, que gosta de viver nos campos e nas pastagens. Tem um grito estridente que lembra a palavra quero e é um vigilante nato. Quando percebe a aproximação de qualquer criatura, ele avisa. Por isso nós, gaúchos, o chamamos "Guardião dos Pampas". Detalhe: são passarinhos curiosos: não pousam em árvores e fazem seus ninhos no solo. E costumam defender seus filhotes com gritos e ataques rasantes às pessoas e, embora nunca atinjam ninguém, eles assustam demais. E é aqui que começa a história. 



O Pedro insistindo e o avô avisando: não vai, olha o quero-quero, eles estão com ninho, tem filhotinhos, não mexe com eles. Mas vô, eu já disse que não vou mexer, eu só quero ver, VÔ! Já falei, menino, não chega perto deles, eles atacam as pessoas. Pra quê? Nem te ligo, o Pedrinho não deu a menor bola, saiu de tranco duro, a passos largos, no firme propósito de ver os filhotes bem de perto. E não deu outra, foi mal. Você precisava ver os apuros, o corre-corre, a choradeira! Nada do que eu escrever aqui dará a dimensão exata do que aconteceu naquele instante. Só sei que foi tudo muito engraçado, a família inteira dos quero-quero (pai, mãe, tio, primo, sobrinho) todo mundo voando e gritando ao mesmo tempo, era vôo rasante que não acabava mais, quero-quero pra todo lado, uma esquadrilha de guerra, e o Pedrinho bem ali, no meio do tiroteio, no maior susto, correndo em círculos, agitando os braços e berrando a plenos pulmões. Uma doideira. E a assistência -- sim, tinha assistência, hahaha -- aos berros, acenando com as mãos, corre Pedrinho, aqui, por aqui, rápido! No final das contas foi preciso a intervenção do avô para colocar tudo em pratos limpos e trazer a paz de volta ao sítio. A paz? Que nada, não deu meia hora e lá vem o Pedro novamente tentando aprontar noutro campo de pastagem. Dessa vez o esperto avô, na maior calma do mundo, e em pouquíssimos decibéis, disse apenas: "Pedro, olha o quero-quero!" E eis que o milagre acontece: o céu se abre e o Pedrinho obedece, de boa vontade, sem contestar! Maravilha, tudo sob controle. Agora sim, com esse poder na mão, certamente haverá por aqui, -- por pouco tempo, eu sei --, um netinho obediente, sonho dourado de todos os avós! O quê, denunciar o avô? Enlouqueceu? Aprender com os erros não tem absolutamente nada a ver com bullyng! De onde você tirou uma bobagem dessas? Ninguém merece. Rsrsrs.
Marli Soares Borges, 2013

P.S. por motivos óbvios não consegui bater fotos. As imagens são do Google.

quinta-feira, outubro 10, 2013

10 DE OUTUBRO DIA MUNDIAL DA SAÚDE MENTAL

Dia Mundial da Saúde Mental


Marli Soares Borges (c) 2013


O objetivo dessa comemoração é chamar a atenção pública para a saúde mental global, como uma causa de interesse comum a todos os povos, além de limites nacionais, culturais, políticos ou socioeconômicos. A Organização Mundial da Saúde considera a saúde mental uma das prioridades em saúde.

Millôr Fernandes disse que "A única diferença entre a loucura e a saúde mental é que a primeira é muito mais comum." E pelo que andei lendo em sites especializados, ele não disse nenhuma bobagem, pois as perturbações de natureza mental estão crescendo significativamente e os distúrbios mentais, independentemente da sua gravidade são, e serão cada vez mais, a nova grande endemia do século, sendo que a depressão é a segunda causa de incapacidade na maioria das pessoas. A doença mental é o fator de maior risco de suicídio no mundo.


E A SAÚDE MENTAL?


Pois é. A gente ouve falar em “Saúde Mental” e pensa logo em “Doença Mental”. Mas aprendi que a saúde mental vai muito além da pessoa não ter doenças mentais. A Saúde Mental se relaciona diretamente à forma como a pessoa reage às exigências da vida, como harmoniza seus desejos, capacidades, ambições, ideias e emoções. Implica em compreender que ninguém é perfeito, que todos nós temos limites e que não podemos ser tudo para todos. Ou seja, implica na aceitação da nossa -- e vossa -- humanidade. Implica também na capacidade de enfrentar os desafios e as mudanças da vida cotidiana de forma equilibrada. E ainda em saber procurar ajuda quando surgirem dificuldades para lidar com os conflitos, perturbações e traumas. E isso em todas as fases da vida. Resumindo: têm saúde mental aqueles que sabem lidar com as emoções diárias: alegria, amor, satisfação, tristeza, raiva e frustração. É importante compreender também que qualquer pessoa pode, em algum momento de sua vida, apresentar sinais de sofrimento psíquico sem que isso signifique que esteja com algum distúrbio.

Então. Depois de todo esse blablablá, o que ficou muito claro para mim, sem qualquer novidade, é que manter sentimentos positivos consigo, com os outros e com a vida, ainda continua sendo a carta na manga para conservar a sanidade mental.


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quinta-feira, outubro 03, 2013

NO MEIO DO TEMPORAL



No meio do temporal


- Marli Soares Borges -

Cada vez é mais difícil viver neste início de século. Tudo muito pesado, todo mundo armado, a grosseria grassando. Andamos na velocidade da luz. E de cara amarrada desde o amanhecer. Por onde anda o tempo para viver? Já era. Fizemos da vida uma arena: é ganhar ou perder, viver ou morrer, tal como acontecia no passado com os gladiadores. Uma luta de vida e morte. 

Escravos da vida, foi nisso que nos transformamos. 

E nesse compasso aprendemos com maestria, a criar e alimentar o medo, em nós e no coração dos nossos afetos. Medo de perder o emprego, de ser mal sucedido nos negócios, de cair em desgraça, de perder coisas. Perder é a morte. Atitudes equivocadas, a meu ver. Sandices, pois as perdas são componentes vitais de nosso crescimento pessoal. Temos que aprender a lidar com as perdas, isso sim. 

Acontece que nessa histeria do não perder, andamos por aí sofrendo por antecipação e por bobagens. Coisa que, com um mínimo de criatividade, tiraríamos de letra. Onde se viu sofrer por bobagens, a gente tem que sofrer pelo que realmente é trágico, pelo que faz a vida sangrar. 

Está sofrendo? as coisas não estão dando certo, perdeu o rumo, a vida virou madrasta? Pois então chore, descabele-se, grite, esperneie, faça o luto, mas aguente firme. Isso vai passar, nada é permanente nessa vida. Vai passar, ouviu? E por favor, não deixe pelo caminho o discernimento, a serenidade, a leveza, a autenticidade, a gentileza e o sorriso espontâneo. São vestes criativas que sempre nos protegem das intempéries da vida. Não ande nu, no meio do temporal. Você é uma pessoa decente, você não merece esse castigo.


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segunda-feira, setembro 30, 2013

O CONFRONTO


Trabalhar bastante? Sim. Ralar? Sim, afinal nada vem de graça e ninguém bate à nossa porta para pagar nossas contas. Trabalhar demais? NÃO. Me desculpem os que vivem dia e noite com a cara metida no trabalho, que vivem só para o trabalho. Para mim, isso é uma fuga. Uma desculpa que inventaram para si próprios. É medo de lidar com as necessidades mais profundas do coração, medo de encarar os desejos interiores. É mais fácil apelar para o excesso de trabalho. Ninguém vai colocar em xeque, -- afinal trabalho é trabalho --, e cai como uma luva para impedir que você confronte o que você quer da vida com o que você está vivendo no momento. Impede que você examine seus verdadeiros desejos, as coisas que mais importam para você. E você vai empurrando a vida nesse esconderijo estratégico. Mas não adie tanto o confronto, você vai se surpreender com as novidades que sua própria vida tem a dizer sobre você. Marli Soares Borges