28 abril, 2015

SE ACASO VOCÊ CHEGASSE...

Acredito no acaso muito mais do que no mérito e considero que o esforço e o talento, por si sós, não determinam o sucesso das pessoas. Li um artigo de um escritor franco-canadense - Malcolm Gladwell - sobre esse assunto e concordo com ele. Para mim, a meritocracia não passa de uma ideia falsa, quase uma fé "virada para baixo" com dizia Murphy. Se o esforço árduo fosse necessariamente recompensado o sucesso estaria praticamente garantido para todas as pessoas. Era só se esforçar e pronto. Mas, infelizmente, não é assim que funciona, tem gente que leva a vida inteira se esforçando e nunca chega lá. Acontece que a meritocracia é apenas uma crença e o acaso não. O acaso é real e está em todos os lugares. Observe: o acaso inaugural, que praticamente dá o 'tom' da nossa existência, começa precisamente no dia em que, direto da barriga de nossa mãe, desembarcamos nesse mundo. Desde a nossa mãe, a nossa família, o lugar do nosso nascimento, nossa escola, etc, até os atos e fatos casuais, anteriores e decisivos que nos dizem respeito, todos eles são acasos determinantes na nossa vida. Enfim, penso que o papel do acaso não é pequeno, ele é bem maior do que gostaríamos de admitir. Mas isso não significa que eu despreze o valor do esforço e da dedicação. Pelo contrário, o esforço, a dedicação, o comprometimento e as horas-bunda de estudo, contam muitíssimo na vida e, verdadeiramente, alavancam o sucesso. Apenas não concordo com a ideia de que o esforço árduo terá necessariamente sua recompensa, pois o acaso é moeda forte e não pode ser desconsiderado. Lembro de Santo Agostinho, "somos todos iguais, até o momento em que nascemos". Certamente, também ele, por acaso, andou encucando no acaso de todos nós.

Marli Soares Borges

07 abril, 2015

O MINISTÉRIO DA VERDADE

planeta de papel

Li por aí uns papos sobre jornais digitais, sobre a bobagem que estamos fazendo em manter jornais em papel, coisa mais antiga. Para que atolar o planeta de papel? Para que manter jornais impressos, se encontramos tudo online, a um clique de nós? Ok, ok. Mas confesso que nesse quesito, tenho muitas reservas. Desde que li, ha muito, "1984" (de Orwell), nunca mais esqueci o "Ministério da Verdade". Fiquei impressionada com o tal ministério cujo objetivo era exatamente o oposto da Verdade: ele era diretamente responsável pela falsificação da história. (Em Novilíngua, porém, o nome era bem apropriado, já que “verdade” é aquilo que o Estado quer que seja verdade). De fato, o tal "Ministério da Verdade" cuidava nas notícias, entretenimento, artes e educação e seu propósito era reescrever a história e alterar os fatos, de forma que eles se encaixassem na doutrina do Partido. Por exemplo, se o Grande Irmão (chefão do Partido) fizesse uma previsão que se revelasse errada, os funcionários do Ministério deveriam reescrever a história de forma que a previsão do Grande Irmão (chefão do Partido) estivesse correta. Deveriam criar a ilusão de que o Partido é absoluto, eternamente correto e forte. Como se vê, era um ministério muito especial. Ele apagava as lembranças e alterava a história. Vai daí que volta e meia me vem à cabeça uma coisa terrível: hoje em dia temos um arsenal tecnológico fantástico ao nosso dispor. Pois bem, você já imaginou, como seria fácil hoje em dia, modificar rapidamente quaisquer registros, se não houvesse jornais impressos, se houvesse apenas a mídia digital? Seria facílimo, como também facílimo seria ao governo exercer uma fiscalização difusa e controlar a vida dos cidadãos, invadindo 'legalmente' os direitos individuais. O quê? Paranóia minha? Negativo. Já tem gente louca -- moluscamente, dilmamente, petralhamente louca -- querendo reescrever a história. Temos que ficar antenados. Por isso, acho muito importante que os jornais e todos os registros em papel, a despeito de sua alegada falta de praticidade atual, permaneçam existindo e convivendo com a mídia digital através dos tempos. Precisamos ter um mínimo de certeza de que nossa história permanecerá intacta. Já conseguiram nos engambelar com as urnas eletrônicas, que não conservam nenhum registro concreto de nossos votos. Agora querem também terminar com os jornais impressos? Uma história sem registros? Sou contra.

Marli Soares Borges

* Imagem: retirei do Google. Se for de alguém, por gentileza, avise.